A porta da cozinha estava aberta e eu falava ao telefone com a minha mãe, sentada à mesa. Nisto entrou a sombra de um pássaro em casa, que eu reconheci de imediato ser uma andorinha. A andorinha não hesitou por um momento, abriu as asas e planou no espaço todo aberto entre a cozinha e a sala. Passou-me sobre a cabeça, vi-lhe o peito claro, as asas negras com as pontas reviradas para cima, senti-lhe a respiração, e quase lhe morri nos braços, com medo que se assustasse e batesse nas paredes. Preparada para a salvar, desliguei depressa o telefone. E nos segundos que levei a reagir, ela voltou a atravessar a cozinha e saiu para o jardim. Não me lembro, em toda a minha vida, de presenciar nada tão belo.
