Atalhos de Campo


1.11.16

pão sem deus

Na esplanada junto à igreja, uma pequena pomba, vestida de cinzento banal e com um defeito numa pata, encontrou, sob uma das cadeiras, um pedaço de pão. Feliz com a descoberta, atirou-o ao ar depois da primeira bicada, tentando desfazê-lo para melhor o comer, e logo perdeu o lugar, pois um macho garboso, de penas claras, ao avistá-lo no zénite, imediatamente lho roubou. De peito feito, a arrolhar, começou a chamar o seu séquito, enquanto enxotava a pomba manca e a perseguia, à bicada. Surgiu então um trio esvoaçante de belas e jovens columbinas a atravessar o sol, que tombava já sobre os mármores imponentes da igreja, entre o qual ele passou a rodopiar, oferecendo pão a cada uma, alimentando-lhes a formosura. Mas por vezes, perdido em meneios de arlequim, errava a pontaria, e o pão disparava na direcção da primeira que o recuperara, como se de um jogo do ringue se tratasse. Mata, mata, atiçavam em gritinhos as outras, e ele investia sem convicção, mal disfarçando a indiferença. Nisto, levantou-se de uma das mesas uma mulher de nariz adunco como um bico curvo, seca como uma côdea velha, séria como uma pedra, e, perante a minha perplexidade, espezinhou com força o bocado que restava. E fê-lo uma e outra vez, até lhe saltarem migalhas da face amarrotada contra o passeio sujo, como se estivesse a apagar uma beata, pondo fim ao jogo. A primeira pomba voltou então, a coxear, e, confundindo-se com a calçada cinzenta, começou a comê-las, com avidez envergonhada.   

bruxedo



*Esta casa cheira a alho
 aqui mora um espantalho
 esta casa cheira a unto
 aqui mora um defunto*

 nesta casa cheira a bolos
 mas aqui só moram tolos
 nesta casa nada medra
 porque aqui só comem pedra