Já tive a convicção de estar a salvar vidas. E salvei, por profissão. Também já salvei sem estar a trabalhar, sem um horário para socorrer, tratar, curar. Acudir um passarinho, conseguir retirá-lo da boca de um gato e vê-lo logo a seguir a cantar num galho próximo; espantar a caça a um cão que não precisa de andar a caçar para estar bem alimentado; resgatar um ratinho exausto da piscina, ou mesmo um sapo, que procurou refrescar-se nos dias tórridos, mas que jamais conseguirá encontrar a saída, morrendo estupidamente; libertar uma borboleta, ou um gafanhoto, ou um grilo, que tenham entrado inadvertidamente em casa, são alguns exemplos de situações que colidem comigo e me premeiam, sem eu estar à espera. Com outras, tive apenas a ilusão de salvar: os pardais de caíram do ninho, ainda sem penas, e que eu alimentei e soltei já no estado adulto; o borracho de rola-turca que jazia no chão de um dia frio, de pele quase nua, ao lado do irmão morto, atirados pelo gato do alto de um pinheiro, e que hoje é uma bela ave que voa pela casa; o coelho bravo com um mês, que vinha cheio de carraças e que se retirou ainda ileso da boca de um dos gatos. Todos estes animais têm, ou terão no futuro, quando libertados, muito poucas hipóteses de sobreviver. Resta-lhes o cativeiro, ou a morte ao virar da primeira esquina, e digo isto com uma percentagem mínima de erro.
Salvar um animal silvestre é conseguir devolver-lhe o mais depressa possível, senão imediatamente, a liberdade. Quando o homem supõe que salva um animal, ao livrá-lo da implacável máquina da cadeia de onde o resgatou, e o consegue alimentar mimetizando os pais, o protege para adiar riscos, o domestica, não está, de facto, a salvar, mas apenas a protelar-lhe a morte, quando, convencido disso, o introduz de novo, mais à frente, no carrossel alimentar a que ele pertence e de onde, por infortúnio, saiu. Na natureza, tudo aquilo que não tem capacidade imediata (ou quase) para sobreviver em liberdade, é porque já está morto.
Salvar um animal silvestre é conseguir devolver-lhe o mais depressa possível, senão imediatamente, a liberdade. Quando o homem supõe que salva um animal, ao livrá-lo da implacável máquina da cadeia de onde o resgatou, e o consegue alimentar mimetizando os pais, o protege para adiar riscos, o domestica, não está, de facto, a salvar, mas apenas a protelar-lhe a morte, quando, convencido disso, o introduz de novo, mais à frente, no carrossel alimentar a que ele pertence e de onde, por infortúnio, saiu. Na natureza, tudo aquilo que não tem capacidade imediata (ou quase) para sobreviver em liberdade, é porque já está morto.