Atalhos de Campo


10.3.19

ervas altas

O corpo pede-me descanso. Moída por um dia de jardinagem, deslizo por entre o cheiro a lavado dos lençóis de algodão branco. Demasiado cedo para dormir, ouço os meus vizinhos. Eles ficaram por cá, e durante o fim-de-semana distingo-lhes os movimentos: o arrastar de uma cadeira, o ranger de uma porta, o ventilador, quando acendem a luz da casa de banho, o som dos pratos e das vozes, sem felizmente perceber as palavras. A presença deles, ainda que pouco os veja, é bem-vinda, porque torna este canto mais habitado, e à noite mais seguro. No entanto só do meu lado parece haver gente. Ao meu jardim, que tento disciplinar e cuidar o melhor possível, opõe-se o crescimento caótico das ervas que devoram rapidamente a terra, enquanto prepararam sementes em abundância, e com tal violência que ocultam já os pés das árvores de fruto, estioladas pelo pouco tratamento que recebem. Por vezes um adolescente macilento surge por entre as ervas altas na direcção da casa abandonada, onde se fecha no quarto, ligado ao mundo inteiro. Não volto a vê-lo, mas sei que está cá por causa das exclamações de alegria, bastante espontâneas e numerosas, embora conste que não gosta de contactos directos com seres humanos, que prefere a mediação de um ecrã. Ao observar os hábitos vizinhos, enquanto o jardim definha, estrangulado, e tudo tem um aspecto decadente, pergunto-me se um apartamento na cidade não seria muito mais adequado ao estilo de vida que têm. É que a terra é uma dádiva que dá muito trabalho.

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