O Renault safa-se bem no caminho que já conhece e devolve-me a estrada poeirenta, desenhada em linha recta na planície fria e ressequida. É impossível não reparar que para estes lados as amendoeiras se adiantaram na flor, bafejadas por sol sem competição. Uma delas, isolada, inclina-se com delicadeza oriental sobre um viaduto, vestida com o seu quimono de flores cor-de-rosa, agradecida por lhe terem poupado a vida. Mas o trajecto é curto e em breve vejo fechar-se sobre mim o enorme portão branco, semelhante ao muro alto e impenetrável de uma prisão. Dentro vivem quatro cães ferozes, que estão presos nos canis ou acorrentados, cães que podem matar uma pessoa. Luna, a menos agressiva, é um lobo dourado e inquieto, a que preciso de tirar sangue. Acham estranho que sugira que lhe coloquem um açaime, mas insisto e explico que açaimada ficará muito mais calma e teremos todos o trabalho facilitado. De facto assim é, e cumprida a tarefa soltam-se os maxilares de Luna para que abocanhem o ar com precisão. Mas esquecido o álcool volto atrás, ao perímetro Lunar, o que ela acha um atrevimento, e franze o sobrolho na minha direcção, avaliando distâncias. E é precisamente quando viro costas que ela investe; e morde-me a bota.