Atalhos de Campo


14.1.19

enciclopédia da vida sexual

Lembro-me de ter marcado uma reunião (com carácter de urgência), na sala principal da casa, a que chamávamos justamente a sala das visitas, visto ser raramente utilizada e estar sempre pronta para qualquer acontecimento. A sala fria e sombreada por sobreposições de cortinados era semelhante a uma mulher suficientemente bonita, bem vestida e maquilhada, à qual faltasse vivência e malícia, em suma faltava-lhe a gargalhada da alma numa mecha de cabelo a fugir a correr do penteado. Era portanto uma boa sala de conferências, não de confidências. Eu tinha dezassete anos, frequentava uma turma piloto na área das ciências, e tinha adquirido com a minha mesada um volume da Enciclopédia da Vida Sexual (sem permissão), o que não fora bem aceite em casa. Tinha arrumado o livro na estante do meu lado do quarto (que partilhava com a minha irmã quatro anos mais nova), possivelmente entre A Adolescência, de D. Origlia e H. Ouillon e O Parto sem Dor, de Henri Vermorel, com alguma esperança. Mas o tomo em questão não passou despercebido, ou eu, muito dada a entusiasmos confessionais, comentei trinta vezes que o ia comprar. A manifestação de desagrado foi devidamente recepcionada, e, na hipótese de se tornar proibido e quiçá confiscado, resolvi justificar o livro perante os meus pais, baseado-me em razões científicas, numa avaliação cuidadosa e séria, capítulo a capítulo, da importância da obra, o que, como se veio a verificar, a tornou imprescindível lá em casa.

(Continua)