Atalhos de Campo


15.1.19

enciclopédia da vida sexual (conclusão)

O meu pai era um homem extremamente reservado, mas acedeu ao meu pedido para justificar a aquisição de um livro sobre vida sexual, sentando-se no sofá ao meu lado direito, pronto a ouvir-me. A minha mãe mantinha-se séria e impenetrável, usando os seus belos olhos sem cor certa para controlar de soslaio o livro que eu mantinha fechado sobre o colo. Eu amava-os muito, e não os queria decepcionar, mas queria perceber o que era aquilo, aquela revolução dentro de mim, o que fazer, no fundo eu queria perceber o que estava a acontecer comigo, e agir da melhor maneira. E foi isso que lhes expliquei, abrindo o livro à sua frente, detendo-me na organização dos capítulos, nos esquemas, nas imagens. É claro que houve momentos constrangedores perante imagens explícitas que surgiram e que não tentei evitar durante o manuseamento. Expus as minhas razões e fiz-lhes ver que o livro, aquele em particular, era apenas um livro científico sobre algo que todos deveríamos saber. Estava feito e, no fim, o livro passou. O livro passou, eu li-o todo e percebi tudo aquilo que queria e precisava de perceber. Porque, na verdade, há coisas que temos de aprender sozinhos. O livro foi aceite em casa e ainda hoje está na estante em frente à minha cama de adolescente. Soube mais tarde, anos depois, que todos os meus irmãos o leram, e que até o meu pai o tinha lido, sem ninguém saber.

2 comentários:

  1. Também li um livro desses, mas foi a minha irmã que é mais velha que o comprou. A minha mãe nunca teve conversas comigo sobre esse assunto. Era assim naquele tempo.. :)

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    1. Um tabu, sem dúvida. Os livros salvam (e os irmãos mais velhos também). :)

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