Há nele qualquer coisa familiar, que me diz que estou em casa, mesmo que só esteja a fazer um domicílio. É gordo, e bom, do que tenho dúvidas (onde naturalmente o incluo), irreverente e contido. Graças a deus usa o pouco cabelo grisalho preso no alto da cabeça e ri, como se suspeitaria, como um buda. Cozinha como um francês requintado e reparte igualmente, esquecendo-se das proporções. Meticuloso, arrumou nas mesmas telas do passado, animais, mulheres e flores muito esquecidas, enquanto ouvia Puccini, e pendurou-as nas paredes certas. Numa coisa estamos em absoluto acordo: embirramos (o que só se diz ao café). Disfarço que certas recordações lhe enchem os olhos de lágrimas, porque sei onde morrem na incerteza. Talvez Portugal, ainda durante o sono, mesmo antes do último mergulho.
A sua dentição poderosa e um pouco saliente iluminou-lhe a cara de simpatia, era das que parecem ter vida própria ao revelarem-se com generosidade, um sorriso limpo e cheio de encanto no meio daquelas bochechas inchadas. Mas também reparei num pormenor que anulou este efeito positivo e grato: ao virar-se para a empregada, notei que usava no alto da cabeça uma espécie de carrapito japonês ou, melhor dizendo, de samurai, isto é, empinado, para cima, como se fosse um pompom. Naqueles anos já se começavam a ver homens com rabo-de-cavalo, o carrapito era uma inovação (depois tudo isto proliferou ad nauseam, desgraçada originalidade). Uma inovação terrível, em meu entender. Tinha a intuição que aqueles que usam rabo-de-cavalo não eram gente de fiar; alguém com um carrapito japonês era para mudar de passeio e desatar a correr, sobretudo se concebido para compensar a calva e desviar desta as atenções. Todos temos alguma coisa de frívolos e arbitrários, por isso agarrei-me àquele grotesco adorno capilar para decidir que não descia. Achei aquilo o cúmulo da afectação e da imbecilidade.
Javier Marías / Berta Isla (página 361)
A sua dentição poderosa e um pouco saliente iluminou-lhe a cara de simpatia, era das que parecem ter vida própria ao revelarem-se com generosidade, um sorriso limpo e cheio de encanto no meio daquelas bochechas inchadas. Mas também reparei num pormenor que anulou este efeito positivo e grato: ao virar-se para a empregada, notei que usava no alto da cabeça uma espécie de carrapito japonês ou, melhor dizendo, de samurai, isto é, empinado, para cima, como se fosse um pompom. Naqueles anos já se começavam a ver homens com rabo-de-cavalo, o carrapito era uma inovação (depois tudo isto proliferou ad nauseam, desgraçada originalidade). Uma inovação terrível, em meu entender. Tinha a intuição que aqueles que usam rabo-de-cavalo não eram gente de fiar; alguém com um carrapito japonês era para mudar de passeio e desatar a correr, sobretudo se concebido para compensar a calva e desviar desta as atenções. Todos temos alguma coisa de frívolos e arbitrários, por isso agarrei-me àquele grotesco adorno capilar para decidir que não descia. Achei aquilo o cúmulo da afectação e da imbecilidade.
Javier Marías / Berta Isla (página 361)