Ao entrar em contacto com o frio dos lençóis, espirro sete vezes seguidas. Sozinha, deixo que os espirros se expressem livremente, numa espécie de saudação à noite, ao frio, ao Inverno. Passados minutos, batem-me insistentemente à porta. É o meu vizinho, de pijama e roupão, preocupado com os sons que lhe chegaram de cima. Ah, foram só espirros, não se preocupe, disse-lhe a rir envergonhada por aparecer em pijama (mas não pelos espirros de legítima defesa, e até de júbilo). Então eram espirros; espirra com força!, concluiu aliviado, antes de desaparecer. Voltei para a cama e não tornei a espirrar. Mas lembro-me de adormecer com a sensação confortável de que o meu vizinho (habitualmente tão distante quanto eu), viera, afinal, em meu qualquer auxílio.