Atalhos de Campo


25.12.18

escangalhado

A cabeceira estava, como não podia deixar de ser, ocupada pelo homem que sabia tudo. Sobre qualquer assunto. Por exemplo, a propósito dos talheres de prata com que comíamos o delicioso estufado de javali (são Christofle, afirmara sem pestanejar), lembrou que os talheres que eram usados no dia a dia pela marinha portuguesa, falando, claro, da mesa dos oficiais, eram em prata e até em ouro, o que deixou os anfitriões franceses muito espantados; outro exemplo, este com mais interesse: que o medronho feito em destilarias clandestinas era perigoso pelo conteúdo em metanol (resultante da fermentação de folhas e pequenos ramos que se iam acumulando por falta de limpeza dos alambiques), e que a ingestão continuada desse álcool fora a responsável pela cegueira de velhos consumidores crónicos, devido a degenerescências na retina. Mas espantoso mesmo, é que até disse que possuía um aparelho para medir o álcool mau, e o pôs de imediato à disposição dos donos da casa. Portanto, e por qualquer assunto, eis que toda a mesa se voltava para o topo para escutar com devoção as declarações irrefutáveis, que ainda por cima chegavam em bom francês. Um respeitável connaiseur, ousei pensar. À sobremesa partilharam-se os vários bolos que cada um ofereceu. Lembrei-me de levar um simples bolo-rei sem forma típica, um bolo-rei a que chamam escangalhado, o que fez com que o nosso mestre conseguisse pôr os amigos franceses - todos - a dizer ês-can-gá-lhá-dô, o que resultou num momento particularmente divertido do almoço. Captando-lhes a fase de encantamento - achavam tudo curioso, até a massa com fruta cristalizada e chila, parecida com a do seu bolo de Natal - como afirmaram -, alvitrei, quase a medo, que a origem do nosso bolo é precisamente francesa, mas que a forma de coroa dourada não tem só a ver com uma coroa real ricamente decorada com frutas como pedras preciosas, é também uma alegoria à visita dos Reis Magos, e que é por isso que se come no Dia de Reis, tal como aliás acontece em França. Porém, quando me preparava para continuar, depois de um saboroso golo no café, comentando que com esta nova forma o bolo-rei passou antes a ser um hino à república, a voz do senhor enciclopédico irrompeu para o fazer concluir, tout court, do alto do seu despotismo iluminado, que o bolo-rei chama-se assim por ser o rei dos bolos. Que pena que é a democracia ter abolido a fava.