Atalhos de Campo


6.12.18

a guerra das músicas - décimo primeiro imbróglio

Ontem cruzei-me com Ruppert, à entrada da vila. Acenou-me com um gesto desalentado do alto do seu velho Defender branco, com o qual já capotara uma vez nas dunas do Sahara marroquino. Uma barba de vários dias cobria-lhe o rosto magro. Reconheci-o pelo jipe. Nunca mais o vira desde a retirada (a um Sábado), quando ele e a bela Grace, após terem partido a loiça toda, deixaram a esplanada ao abandono e a flauta de pan do inimigo a tocar sozinha. Venha ver o que preparei hoje para o jantar, disse-me há quinze dias o dono do restaurante. Segui-o pouco à-vontade porque sabia qual a sua intenção, e fui logo preparando mentalmente uma desculpa. Sobre uma mesa redonda, impecavelmente vestida de branco, fumegava um cozinhado. Uma mulher jovem de cabelo preto, apanhado num rabo-de-cavalo, tirava fotografias com o telemóvel ao enorme tabuleiro recém saído do forno. Sabe o que é?, perguntou-me, elevando com a colher uma posta de peixe do oceano de azeite, Bacalhau à Zé do Pipo! Isto agora entrou nos eixos, desde a saída do Ruppert e daquela rapariga, a brasileira. E eu que tinha um sócio há tantos anos e fui entregar tudo nas mãos daquele rapaz para o ajudar! Enquanto ela não apareceu ainda foi andando mais ou menos, mas depois estragou-se, e de vez. Sabe, aquilo é muita droga e álcool à mistura. E parece que já não estão juntos. Agora ela diz que está grávida, ora basta fazer contas, não pode ser dele! Tem bom aspecto, sim senhor, a minha avó também fazia este bacalhau... mas não me lembro de ver tanto azeite. Quer fazer-nos companhia? [Aparte: com uma desculpa pouco convincente fugi do meandro da conversa para o ar frio da noite. A boa notícia era o fim da guerra das músicas - e foi com certo alívio que me meti no jipe rumo a casa -, mas durante o caminho não pude deixar de pensar no fim triste de algumas relações amorosas.]

(Continua)