O homem de olhar de maré baixa volta com o seu balde de amêijoas. É ele mesmo que as vai apanhar de manhã cedo, por vezes enterrado no lodo, mas nunca deixa transparecer a mais pequena expressão de contrariedade, nunca profere o mais pequeno lamento. As amêijoas pretas estão imersas em água transparente e fria e o homem mergulha nelas uma caneca de alumínio: duas dão direito a uma de bónus. Há muito que não vem para estes lados, noto, enquanto ele coloca mais uma mão cheia de bivalves no topo da segunda caneca, que em parte lhe escapa, deslizando para a água do mar. Então o príncipe das planícies de lodo vira para mim os olhos claros de azul reflectido, para me contar que tem andado a tirar um curso de jardinagem. De resto, a roupa negra, o cabelo ruivo e a barba aparada, a tranquilidade dos gestos longos que emana da bela figura habituada às aves marinhas, será sempre nómada em qualquer paisagem.
Sem comentários:
Enviar um comentário