Atalhos de Campo


26.11.18

a guerra das músicas - quinto & sexto imbróglio

- Ora, menina, deixe-se lá disso... [aparte: menina, sim, ah, ah, velhas com'as casas, mas a pobre gente a ver ali as rugas crescer, ah, ah, e tem de parecer míope na fala, pois que se não a coisa pode correr mal, um homem vai p'ra velho e precisa destes biscates p'ra compensar a reforma... vá lá, Hilário, menina o qu'é que custa, umas dioptrias a mais, qu'é isso nos dias que correm...], - a menina [:)], precisa é de descansar, já viu a quantidade de gatos assanhados que observou hoje, deixe lá o molho de brócolos, nã se rale, desculpe a expressão, deixe lá de ouvir vozes de personagens, isso sim, havia de ser eu, haviam de me incomodar com música aos altos berros, tipo as noites do S. Carlos cheias de vento, havia eu de tiritar de frio a ouvir a habanera, e a menina a sujeitar-se a ser vítima de música pimba, isso sim, do lado esquerdo pimba, do lado direito armada ao fino, casalinhos parvos, é o que é, e a menina no meio, a ter de fechar a porta para conseguir ouvir, finalmente, a voz dos cães, dos gatos, dos donos... E há quem nã perceba, quem insista que a menina, deve explicar-se, ora pois, eu ainda nã (desculpe a expressão) percebi a razão de me ter mandado percorrer a quinta avenida com aquelas horríveis converse calçadas, all star, ah, ah, a Menina tem é de tirar férias que eu tomo-lhe conta da hortaliça, passe mas'é receitas e deixe lá de ser vítima desses mal-educados que insistem em estacionar-lhe à porta. E se ainda houver dúvidas, mande-os ter comigo. Um homem faz sempre falta; man, se for o caso.

Manuel Hilário

(continua)


Faz hoje um mês que a mãe do João Pequeno desapareceu. Fugiu como fazem os gatos quando querem morrer em paz. No entanto, à volta dos locais de encontro, nada mudou. Apenas a fotografia da desaparecida, sem saber onde está, parece esperar pacientemente que a levem de novo para casa. Mas ninguém tem pressa, demoram-se de garrafa na mão, contam banalidades, riem. Sobressai a voz em falsete de Habanera de Cuba, a namorada trigueira de João Pequeno, que a certa altura começa a provocar os outros homens e acaba a dançar, ocupando o passeio. Quando o café fecha, o grupo finalmente dispersa. João Pequeno coloca o velho capacete e sobe para o lugar traseiro da lambreta encarnada de Habanera de Cuba. [Aparte: e a mãe de João Pequeno ali fica, de rosto colado à janela do restaurante.]


(Continua)