Atalhos de Campo


23.11.18

a guerra das músicas (folhetim em vários imbróglios) - 2ª tiragem / primeiro & segundo imbróglio

Quis o meu destino que assistisse este ano à eclosão quase em simultâneo de dois casais: um à minha direita, o outro à minha esquerda; um casal do campo (o da esquerda), o outro da cidade (o da direita). Foi lá para o fim da primavera, quando os dias se tornaram compridos, que se juntou ao grupo da cerveja uma mulher jovem e trigueira. É claro que houve empolgamento com a novidade, o grupo duplicou e a algazarra triplicou, deixando de haver lugar ao fim da tarde no anfiteatro da escada que dá acesso ao café da vila. Quase ao mesmo tempo apareceu-me pela direita uma bela rapariga, muito alta e elegante, a estacionar um jipe com audível dificuldade. [Aparte: durante esta história, a rapariga com um problema no ponto de embraiagem mudou uma vez de carro e quatro vezes a cor do cabelo, que entretanto ficou simplesmente sem cor.]

(Continua)

Suponho que qualquer amor (ao vivo) consegue derrubar facilmente quatro ou mais provérbios. Pelo menos foi o que me ficou daquela canção do Chico. Comecei no ano passado a reparar no João Pequeno, quando ao lusco-fusco ele descia a rua a conduzir pela esquerda, com evidente excesso de velocidade, a cadeira de rodas onde transportava alegremente a mãe, de regresso a casa. Esta cena muda projectava-se por breves instantes na enorme tela caiada à minha frente, e foi aí, precisamente com a fuga dessa imagem, que um dia decidi levantar-me e começar a olhar para os lados. Mas só mais tarde notei que a coerência da voz do João Pequeno (que lhe sai enrolada em nevoeiro), com o rosto de falésia escarpada, ambos à mercê da erosão, poderia erroneamente conotá-lo com o mar. Ou talvez não seja assim tão antiga a passagem do mar por estas terras. [Aparte: é bem possível que o João Pequeno tenha mais cinco quilos, desde o início da história.]


(Continua)