Atalhos de Campo


1.6.18

Nós, de longa existência

No cemitério, o talhão das pequenas campas.
Nós, de longa existência, atravessamo-lo furtivamente
como os ricos atravessam um bairro de lata.

Aqui jazem a Zosia, o Jacek e o Dominik,
prematuramente roubados ao Sol, à Lua,
às estações do ano e às nuvens.

Pouco amealharam na bagagem de volta.
Uns trapitos de paisagens
em número muito pouco plural.
Um punhado de ar com uma borboleta a esvoaçar.
Uma colherinha de saber amargo com gosto a remédio.



Umas pequenas desobediências,
nelas, uma mortal.
Uma alegre corrida atrás da bola pela estrada.
Um momento de felicidade ao deslizar no gelo quebradiço.

Este, aquela ali ao lado e aqueles lá da ponta:
antes que tivessem crescido para chegar à maçaneta,
estragar o relógio,
partir o primeiro vidro.

Malgorzatka, quatro anos,
dos quais, dois, deitada a olhar o tecto.

Rafalek - faltava-lhe um mês para completar os cinco,
Zuzia - a ela, só o Natal
com aquele bafo da respiração no frio.

E o que dizer então da vida de um só dia,
de um minuto ou de um segundo?
As trevas, o clarão da lâmpada e de novo as trevas?

KÓSMOS MAKRÓS
CHRÓNOS PARÁDOKSOS
Somente o grego pétreo tem palavras para isto.


Wistawa Szymborska / Bagagem de Volta