Atalhos de Campo


6.5.18

Uns olhos com o mar de Luanda



Aos domingos de manhã, quando abria os olhos, as manhãs começavam. É diferente acordar na savana ou em qualquer outro lugar, e nós acordávamos sempre na savana. Acordávamos em África. Ao pequeno-almoço a minha mãe era Gene Tierney. Gene abria os olhos da dimensão que nunca nos transmitiu, a imensidade de um continente. O seu poder, ainda hoje incontestado, que avançava ao longo do dia, prolongou-se pelos anos fora, e aprendemos como esses olhos poderosos podiam não só gerir pequenos-almoços, mas vidas. Como um felino, ensinou-nos a avaliar a média distância, a controlar de perto, a sonhar com olonge. Nãome parece que tenha ronronado só pelas suas crias. Tinha, tal como nos ensinou, sonhado com outro sol, que deixou sem assinatura. Para trás ficou a jornalista que gostaria de ter sido, embora a paixão pela informação e pela rádio continue a interessá-la todos os dias. Ao meu pai dedicou, por fim, quase todo o seu tempo: foi a enfermeira, a amiga inseparável, a gestora atenta da sua longa doença. Em 1984 era tal e qual Elizabeth Mcgovern, antes de tirar as máscaras. E hoje é a minha mãe, guerreira e inteligente, bela nos seus quase oitenta anos. Os mesmos olhos, sem outro mar.
[Publicado em 18/6/2014]




Nota: Gene Tierney foi Laura Hunt no filme Laura, de Otto Preminger(1944). Frank Sinatra, Carly Simon, Duke Ellington, Ella Fitzgerald e outros, eternizaram o tema do filme, mas é Deborah's Theme, de Morricone, em Once Upon a Time in America(1984), que me fará sempre lembrar a minha mãe.