Atalhos de Campo


4.4.18

sobre o coração

Estavas deitada e imóvel, com as mãos cruzadas sobre o coração. Perguntei-te em que pensavas e tu respondeste-me que estavas a fingir que morreras, que estavas a tentar sentir como era. Tínhamos treze e dezoito anos. Tu eras a minha prima mais velha. A tua cama  ficava do lado da janela, a minha do lado da porta. Havia duas cadeiras com roupa (calças à boca-de-sino, blusas estreitas, lenços), e colares, muitos colares. Pelo chão jaziam as nossas socas e era num armário ao fundo que partilhávamos a revolução. Para nós era tudo fácil. Foi por isso que morreste ontem e que ninguém conseguiu acreditar - A avó estava a brincar connosco e depois morreu -, só para exemplificares que a morte nada tem de especial. A morte é isto, mostraste-me tu, quando eu tinha treze anos. É deixar as mãos cruzadas sobre o coração. Durante uma eternidade. Se amanhã te levantares da cama à gargalhada, eu acredito. E os teus netos também.

Em memória da Ana Luísa