Atalhos de Campo


27.4.18

papéis

Batem à porta e de seguida aparece a cabeça do homem cinzento. Cumprimento-o hoje pela primeira vez, quando ele me pergunta se sou a médica, mas lembro-me de já me ter cruzado com ele várias vezes em passo rápido, geralmente ao fim da manhã antes do banco fechar, e de o ver sempre por ali parado. Enquanto escrevo, reparo melhor no homem cinzento. E paro. O seu roupeiro terá certamente o mesmo fato repetido inúmeras vezes, todas as que o vejo. Está a fumar em pé, ou sentado no banco de jardim, perto da olaia que entretanto se encheu de flores rosa velho. Quando lhe disse que demoraria um quarto de hora, o homem cinzento não esperou, mas voltou rigorosamente um quarto de hora depois, puxou a cadeira e sentou-se à minha frente, perto, embora do outro lado da secretária. E começou a chorar. Disse várias coisas, que tinha ido sempre ali, disse que agora não podia pagar a consulta, que a vida tinha entretanto mudado muito, mas que viria, quando pudesse, para vacinar os cães, quando já não estivessem doentes. Pelos sintomas sei qual é o diagnóstico, sem grande margem de erro, e escrevo num papel o que pode ir comprar à farmácia. Volto a mergulhar no computador, entre parametrizações e registos, até que o homem cinzento me acena à porta com duas caixas na mão, e mesmo da rua me diz Obrigado, vou já dar-lhes isto. Foi a primeira vez que vi o homem cinzento com pressa. E que, curiosamente, os nossos papéis se inverteram.