Atalhos de Campo


2.4.18

jardim mediterrânico

Durante os meus passeios com os cães nunca vi nada tão belo. Pergunto-lhe onde os encontrou. Ali para dentro, disse a mulher de cabelo vermelho, apontando os dois cachos de flores azuis que acabara de colher para um trilho sumido entre maciços de roselhas magnificamente floridas no meio das pedras. E lá fomos, sempre a subir, até uma clareira onde o vento argumentava fortemente com as árvores e o céu assistia, ensimesmado e cinzento. Encontrei-os sob os ramos baixos das oliveiras, perplexos e escondidos em azul-sombra. Lembro-me que a mulher de cabelo vermelho referiu o seu nome científico, Scilla peruviana, e que disse que estão sempre em flor por altura da Páscoa. Distraídos com os cães e chamando por eles, fomos caminhando sobre o enorme tapete verde e rasteiro que cobria o roçado, e, perseguindo-lhes as caudas em constante movimento, sem querer afastámo-nos bastante. Surgiram depois de muita insistência, vindos dos matagais envolventes, já o céu galopava para a noite. Os muros de pedra, parcialmente destruídos, cintavam com o mesmo desleixo toda a paisagem onde já não cresciam lírios azuis. E depois de hesitações e de várias tentativas goradas de encontrar o caminho de volta, foi uma vez mais quando se adensou o rosa das flores de roselha por entre as pedras, que o trilho, como por milagre, apareceu. Todos comentámos qualquer coisa sobre a hipótese de nos podermos ter perdido por ali, depois da porta de casa fechada, com certo alívio, à primeira gota de chuva. A minha neta sorriu e pareceu-me ver-lhe uma roselha doce em cada bochecha, enquanto colocava as flores de Páscoa numa jarra, e os cães sucumbiam ao lume, perdidos de cansaço.