Atalhos de Campo


2.3.18

o silêncio consentido

Vejo a luz forte de uma lanterna a aproximar-se da casa e, de seguida, batem-me à porta. Sou a Beatriz, aqui do lado, faço hoje anos e trouxe uns amigos para comemorarem comigo, queria deixar o meu telefone, que é como faço sempre nestas situações, quando estivermos a incomodar, pá, liga-me que nós paramos... Parabéns Beatriz, começo por dizer, não sei se vale a pena deixares o teu número, será que vão fazer assim tanto barulho... pá, é como faço sempre, ficas com o meu número e ligas-me, quando te fores deitar. Então está bem, Beatriz, dá-me um toque que eu fico aqui com o teu telefone gravado, e, se precisar, ligo. E dei o meu telefone à Beatriz, e voltei a dar-lhe os parabéns. A Beatriz foi-se embora de copo numa mão e lanterna acesa na outra, e a lua continuou alta e brilhante sobre a alfarrobeira, impassível ao vento frio. Agora escapa-se por aqui adentro uma algazarra consentida, situada mesmo por baixo do meu quarto. Mas dificilmente acharei necessário usar o telefone. Isto se fizer uma média entre gargalhadas solares, música alta, e urras, com o silêncio que normalmente me sobeja. Também não me parece que a Beatriz vá algum dia telefonar-me, incomodada com este meu excesso.