Atalhos de Campo


8.3.18

aldraba

Fixei a mão direita, distendida sobre a porta, como que a senti-la. Uma mão comprida e bonita de dedos hábeis, com unhas limpas e cortadas, uma mão de carteirista. Clyde, pensei, porque Bonnie se mantivera na sombra, a meu lado. Ele tinha-nos mandado olhar para o céu estrelado, que bela noite, olhem, comentara, tirando as medidas à porta. Bonnie logo elogiou a grandiosidade do céu assim iluminado, mas eu apenas olhei de relance, e respondi que já tinha reparado. Queria mesmo era observar como as mãos dele trabalhavam até conseguir abrir a porta, que eu fechara à pressa para ir fazer uma urgência, deixando a lareira acesa, o fogão apagado, os cães separados, mas à saída precipitada, fechara-a, deixando inadvertidamente a chave do lado de dentro. Dera logo conta, e ainda tentara usar um cartão para a abrir, sentira a lingueta recolher, mas ela mantivera-se impermeável, e eu não insistira. 

Deviam ser cento e vinte euros e não noventa, disse Clyde segurando a porta aberta, isto ainda é longe do consultório... Não é longe, são cinco ou seis quilómetros, viemos foi muito devagar, a dez à hora, porque a sua carrinha não dá mais, respondi-lhe, passando-lhe para as mãos os noventa euros que acabara de realizar na urgência, e que imediatamente desapareceram entre os seus dedos, no escuro.