Atalhos de Campo


18.2.18

próximo do branco

O gato fugiu, desculpa-se. Então temos de o encontrar, respondo, e começamos a chamar por ele, mais eu do que ele. Não estará por aqui escondido debaixo de uma almofada, pergunto, mas Pieter sabe que não, que o deixou escapar, que já não tem destreza para enganar um gato jovem, mesmo que o gato esteja doente. Então há que procurá-lo no exterior, proponho, e saímos para o terraço, Pieter tomando a dianteira nem o vê aproximar-se de mim, porque quer (um gato só faz o que quer), e este pelos vistos quer ser tratado, embora também goste de liberdade. Digo, Pieter, já o temos aqui, pego-lhe e levo-o ao colo para dentro da casa onde há duas semanas vou de manhã e à noite para lhe administrar os comprimidos. Que pena você não vir à festa, diz-me Pieter, mas eu respondo-lhe que tenho tanto que fazer que ainda bem que não fui convidada. Então Pieter faz um gesto para pentear o cabelo completamente branco e liso como a neve do seu país, e pergunta-me se está bem vestido, e eu digo-lhe que sim, que o casaco cor de salmão assenta lindamente sobre a malha bege, que tudo é claro como a Primavera que se anuncia, que está muito elegante, e despeço-me a correr, dizendo que volto mais tarde. Mas quando entro no carro, percebo que tenho a mão a sangrar.