Atalhos de Campo


4.9.17

a força da suavidade



Pelo obituário do jornal que apanhei do chão da cozinha,
(ali colocado para os cães fazerem chichi durante a noite), 
soube que Anne morreu há pouco mais de um mês, ao tentar 
salvar duas crianças em risco de afogamento. Chamou-me a atenção 
facto de ser uma mulher ainda jovem e bonita. Ao ler a sua 
curta biografia, sentada ali mesmo, no chão, admirei-a 
imediatamente: alguém que faz a apologia do risco e que 
morre porque arrisca. Viver sem arriscar, não é viver, 
dito por esta filósofa que eu não conhecia, parece-me uma 
boa advertência mesmo que o risco possa ser de vida. As 
crianças sobreviveram e o jornal estava intacto incitando
à leitura, num dia em que era indiscutivelmente importante
que o fizesse.   

8 comentários:

  1. Não conhecia a filósofa, obrigada. e gostei de a ouvir falar sobre o poder da doçura e que considero uma perspectiva filosófica muito humana. Ela arriscou até à morte; morreu para salvar a vida de outrém, no que é talvez o risco mais bendito e coerente que existe. Muitos riscos que corremos são desnecessários ou põem-nos e aos outros em perigo. Viver é sempre aceitar o risco. Que do futuro nada se sabe.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É sempre um desafio responder-lhe, bea, já que tem o dom de extrair das coisas o essencial. Penso que ao sairmos da nossa zona de conforto e protecção arriscamos, ao vencermos o medo e a insegurança somos mais livres, mesmo que sejamos derrotados. Concordo consigo, correr riscos desnecessários é uma insensatez de quem não ponderou bem o que é um risco digno de elogio. E o dela foi, sem dúvida, um acto de liberdade. Fiquei com curiosidade por ler os seus livros, e penalizada com o seu fim.
      Obrigada, bea.

      Eliminar
  2. Admirável, já o era antes de tentar salvar as crianças e foi-o também nessa altura. Mas é uma tristeza perder-se uma vida assim, uma pessoa assim.
    ~CC~

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sim, CC, doçura, ponderação, inteligência, coragem: demasiado cedo.

      Eliminar
  3. Ramatuelle, um lugar encantado e típico que conheço bem, graças a uns amigos belgas que têm lá uma villa. As portadas são salpicadas de um azul característico, e os céus confundem-se com os azuis pastel do Monet. Tudo em antítese com o ocorrido, que tem tanto de belo como de terrífico.

    Revejo-me no seu pensamento, reconheço-o.

    Com o seu carácter, ela fez o que tinha a fazer e ao fazê-lo, libertou-se. É muito interessante, porque tem tudo a ver com o que ela vinha preconizando. É de uma hombridade que nos deixa sem palavras, sem palavras...

    Obrigada e conto aprofundar esta "Suavidade", feudo do feminino.
    Um beijinho!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Devíamos escolher um lugar para morrer assim belo, que rimasse com o nosso nome.
      Poucas são as pessoas que conseguem demonstrar de forma tão cabal aquilo em que acreditam.
      Acreditar no risco pode ser uma espécie de fatalidade.

      Um beijinho (obrigada pelas cores de Ramatuelle)

      Eliminar
  4. Sim, isso é mesmo assim, viver o risco em que se acredita é saltar fora; partir a garrafa. É claro que o seu papel era esse mesmo, o de desbravar caminho, numa incessante dinâmica. O desfecho só o confirmou, conseguiu salvar, como se tivesse medido o risco, e não fosse o achaque cardíaco, tudo teria corrido bem.

    O azul Tiffany das portadas das casas é frio, mas é peculiar. Inspirada, pintei duas cadeiras de braços com assento de verga. Ficaram bem mais
    interessantes. Os azuis pastel dos fins de tarde, por altura da Páscoa em Ramatuelle, penso corresponderem aos teus favoritos, por isso os referi.

    Um grande beijinho!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sou de cores frias, com apontamentos de vermelho.
      *Páscoa em Ramatuelle*, podia dar um best-seller!

      Beijinhos tiffany

      Eliminar