Atalhos de Campo


22.9.17

submarino ao fundo.

se pensam que dou as coordenadas enganam-se, ah, ah, resistirei
ao sabor dos posts mirandeses lá d'esse andhremnir, hic! que até duvido que estejam mal passados..., hic, açucaradas sobremesas, essas pérolas do equador, onde é que anda a smilenska com os seus amuse-bouche... come-se muito bem neste barco.

20.9.17

contemplação

eu sou
me indiferente

teclista

bernardo soares

teclas

pródigas

Percorro letras sem me zangar, sem ouvir nenhum silêncio a não ser o som das teclas. Dormem ferradas nas suas mantas. Desobedeceram à minha chamada implorativa antes de sair de casa. Pela primeira vez fechei a porta e desapareci a correr para não chegar atrasada sem me sentir adolescente. Durante a tarde lembrei-me várias vezes delas como filhas pródigas. Cheguei já de noite na expectativa que soltassem o remorso a galope, mal pressentissem o carro. Mas não é sintoma de garotas: o seu instinto de sobrevivência alertava-as, e bem, para os perigos da escuridão.

18.9.17

maior idade

quando o teu amor
me compensa

clé

São muitos os vídeos que provam que há gatos cleptomaníacos. Alguns felídeos até conseguem especializar-se em roupa interior (mas da felina). No entanto o meu problema, e bem sei porque escrevi meu - *assim* - não é com um gato, mas com uma cadela menor que gosta de gatos, e que parece ter adoptado um dos seus comportamentos: tenho aqui(que nem sei o que lhes hei-de fazer), brinquedos de criança, havaianas, toalhas, pantufas, ténis, bolas, bolas! - diria a Susana - o horror avoluma-se diariamente, quando a vejo chegar a casa com mais uma coisa daquelas... e bem podia ser a Diane Keaton a dizê-lo, com um dos seus muito bem conseguidos gestos, lá d'isso. 

17.9.17

sem dono

Conservo na memória a imagem desta tarde do cão morto como se chegasse a dormir, nenhum esgar de dor, nenhum espasmo, os olhos circundados por carraças como se fossem piercings, o corpo aconchegado ao alívio da morte. A velha coleira de cabedal, que ainda segurava a vergonha do abandono, mantivera-se como único afago a abraçar-lhe a errância, até ao esgotamento à beira da estrada.

15.9.17

vint' age



a vida é sempre impontual

conversa caiada

Fiz marcha-atrás e dirigi-me a ele em passo apressado. Durante toda a nossa conversa mal levantou os olhos do muro. Era uma espécie, quase extinta, de homem-alfarroba-na-apanha: escuro, seco, concentrado. Usava um rolo pequeno, e com ele branqueava o muro da Escola Primária. Varejei, que a mando da Junta de Freguesia. E não faz trabalhos fora do seu horário, é que precisava, ali para o consultório - apontei-, de uma pintura, como vê... pois vejo, - sem levantar os olhos-de-rolo-de-tinta -, até já disse ao senhorio que é só receber as rendas, e beber cerveja. 

machismo

confesso o meu problema com as vírgulas
e a minha admiração por certas maiúsculas

14.9.17

o grilo

Há duas noites atrás apanhei um grilo no meu quarto, mesmo antes de me deitar. Era um belo exemplar, grande e forte, vestido a rigor de negro noctívago, e brilhante. Peguei-lhe com uma t-shirt, abri a porta da açoteia que dá para a noite onde os grilos se misturam com as estrelas, e deixei-o lá, pensando que voltasse a saltar para o jardim. Despertar de madrugada com o cantar altíssimo de um grilo, faz sumir num ápice qualquer romantismo que possa estar associado às noites de Verão no campo. Estremunhada resolvi voltar-me para o outro lado, mas o grilo não me dava tréguas em lado nenhum. Pensei que talvez não tivesse conseguido devolvê-lo à liberdade, e que ele afinal cantava ali mesmo, aos meus pés. Levantei-me e aproximei-me do sítio de onde vinha o som. Não havia dúvidas de que o grilo estava fora do quarto, mas cantava com tal intensidade que parecia estar lá dentro. Dei dois toques com os nós dos dedos na porta de vidro (duplo, acrescente-se) e ele calou-se, mas por pouco tempo. Recomeçou, e eu voltei a fazer-me notada, e ele voltou a calar-se. Deitei-me de novo, pareceu-me ouvir cantar mais longe e presumo que adormeci. Mas quando às sete da manhã me levantei e abri a porta da açoteia, o grilo foi sugado para dentro do quarto e caiu-me, literalmente, aos pés. Tinha escolhido exactamente aquele recanto para pernoitar. Peguei-lhe outra vez, mas desta feita para descer com ele para o jardim. Coloquei-o no canteiro das zínias, que tem bastante alimento e esconderijos. Há dois dias que o oiço cantar muito próximo da casa, mas suficientemente longe do meu ouvido. Tenho a certeza de que é ele: cada vez acredito mais que deve haver grilos que gostam de pessoas, como há pessoas que gostam de grilos. 

9.9.17

feijoada com todos os poetas

A casa está mergulhada no vento. Acendi velas em vários sítios. Arde ao meu lado uma delas, que resiste há dez anos, sem nenhuma razão especial. Faço contas e reparo que por ser muito grande já conseguiu perfumar as três casas anteriores. Na cozinha, onde adormeceram as cadelas por exaustão, cada uma no seu cobertor colorido, borbulha a fogo lento o esquiço de uma feijoada, que vou aperfeiçoando a cada içar de tampa. Cheira bem, e há paz, e silêncio. Esta semana Tolentino consegue reunir Pessoa, Cecília Meireles, Adélia Prado e ele próprio, num desencontro brilhante. 

prócida:



foste o meu herói azul
a minha solidão sem sul

8.9.17

bd

os teus comentários
parecem documentários

fica bem

pode ser mais simpático
do que ben fica

post

mal passado.

água retrasada

Segue à minha frente uma camioneta, ou eu sigo uma camioneta à minha frente. Idosa, (velha). A camioneta é absolutamente isso, para onde caminho. Vai carregada com um contentor cilíndrico, isso, como ela quase eu, (as)sentado na sua anca rectangular e desengonçada. Reparo com o imenso vagar o n d u l a n t e, que o reservatório está recauchutado com uma espécie de botox, ácido hialurónico ou coisa que o velha (nunca eu) para contentores em alumínio a atirar para o decrépito. Há uma mancha no bidão que me parece um pequeno fantasma, mais escura que o cinzento geral em que me concentro, e que insiste em flirtar comigo, intrigando-me em toda a curva decadente.
Água! - consigo ler finalmente -, e o fantasma sorri-me. Pois é, lembro-me de imediato, aliviada: aqui vende-se água às toneladas e quintais, porque se compra água, porque em muitas casas ainda não há água canalizada.
Olá fantasma, - vamos indo.

5.9.17

a guerra no prato



Respeito muito os vegetarianos. Atualmente, a minha
alimentação e a da minha família é 60% vegetariana.


(...)matar um javali e ir lá com a faca sangrá-lo, 
tirar-lhe o sangue todo, fazer-lhe festinhas enquanto 
o sangue lhe cai pelo pescoço, (...) dar um tiro num 
pombo ou num faisão.
(...) ter um pombo e abri-lo todo, tirar-lhe o peito,
o coração, o fígado e os pulmões, tirar-lhe o sangue
com um paninho, tomar conta dele...

4.9.17

a força da suavidade



Pelo obituário do jornal que apanhei do chão da cozinha,
(ali colocado para os cães fazerem chichi durante a noite), 
soube que Anne morreu há pouco mais de um mês, ao tentar 
salvar duas crianças em risco de afogamento. Chamou-me a atenção 
facto de ser uma mulher ainda jovem e bonita. Ao ler a sua 
curta biografia, sentada ali mesmo, no chão, admirei-a 
imediatamente: alguém que faz a apologia do risco e que 
morre porque arrisca. Viver sem arriscar, não é viver, 
dito por esta filósofa que eu não conhecia, parece-me uma 
boa advertência mesmo que o risco possa ser de vida. As 
crianças sobreviveram e o jornal estava intacto incitando
à leitura, num dia em que era indiscutivelmente importante
que o fizesse.   

1.9.17

claudicações

O cachorro que claudica de um dos posteriores, segue uma senhora que fala ao telefone e que de vez em quando pára. Ele também pára, ansioso por lhe chamar a atenção, mas ela parece não perceber continuando a conversa, e gesticulando com a mão livre. Então ele desiste, adianta-se-lhe e desaparece por entre os carros estacionados, atravessa a estrada e volta a atravessar, de atenção erguida e olhar apurado, como se um periscópio se tivesse destacado do seu pequeno corpo. A senhora ali permanece, indiferente, entregue à conversa, e depois também ela desaparece no interior de uma loja. O cão pequeno fica sozinho e continua a sua busca cada vez mais aflitiva até que eu lhe apareço à frente, e o chamo. Aproxima-se a medo e eu tenho medo que ele, assustado, fuja para o meio da estrada. Finalmente consigo pegar-lhe e levo-o ao colo. É uma cadela com olhos cor de esmeralda, certamente roubados ao mar. Pesa menos de quatro quilos e tem cinco meses. Dedico-me a tratá-la o resto da manhã. Agora dorme numa cama ao lado da outra cachorra. No espaço de um mês é o segundo atropelado que recolho.