Atalhos de Campo


23.8.17

valeria

Esperava em pé na esplanada vazia do café fechado, agarrada ao telemóvel. Vinha para uma entrevista de emprego. Percebi imediatamente que era ela. Não existia mais ninguém: calções pretos muito curtos, de bainhas desfiadas, top branco, sandálias, um enorme rabo-de-cavalo negro. Lamentei o facto de ser o dia de folga, mas ela pareceu-me bastante à-vontade, e sentámo-nos mesmo ali. Vencendo o impacto negativo do outfit, comecei por lhe perguntar que idade tinha. Trinta, disse-me, mas achei-a pouco convicta. Estou cá há seis anos, e eu comecei a fazer contas de cabeça, 24... Então, e tem o curso de veterinária... que sim, feito na Rússia, seis anos - mais contas - depois os estágios, mandaram-me para um matadouro, e tal. A Valéria trabalha na praça a vender peixe. Entro às seis e meia da manhã e saio às três da tarde, agora às quatro porque é Verão. E nunca pensou em exercer a sua profissão? Sim, mas querem experiência, eu não tenho. Pode começar por aprender, sendo auxiliar de consultório, e, depois, adquirindo prática, chegar a dar consultas. Nunca pensei nisso, é uma boa ideia. 

Agora os olhos de Valéria eram dois peixes de rio a rabear nas órbitas e toda ela me parecia escorregadia, plena de ácidos gordos Ómega-3, a derreterem, subitamente, chiando sobre um assador. Suponho que eu devia assemelhar-me a uma rede a subir em esforço o rio, ou a uma cana de pesca de qualidade duvidosa a aproximar-se de forma ameaçadora. Por isso não se interessou muito, nem lutou. Passado pouco tempo levantou-se, despediu-me estendendo umas unhas de gel azul turquesa, para o caso de eu não ter reparado, e partiu num Fiat como um sargo assustado, a favor da corrente.         

10 comentários:

  1. Bolas para a Valéria. Não seria veterinária? Paciência. Ainda assim, parece-me que servir cafés é melhor que vender peixe. O cheiro é mais agradável. As unhas de gel dão pouco jeito, mas usam-se luvas e está feito:).
    Eu gostava de ter assim um imaginário prolífico. Mas voa-me a cabeça de outra forma. Paciência:).

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    1. Bolas. Por vezes tentamos encaixar os outros no nosso imaginário, mas não dá. E o pior é quando por necessidade fechamos os olhos. Um dia abri-los-emos pela força da decepção. Fiquei com algumas dúvidas por esclarecer mas com uma certeza fundamental, confirmada pela própria: não servia.

      E que belos são os seus voos de cabeça, bea.
      Obrigada :)

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  2. A Valeria não lhe apetecia mudar de vida, parece-me, ou então queria que uma nova vida lhe caísse nas mãos...

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    1. A Laura tem muita razão, quando diz que a Valéria dá pano para mangas. Há uma coisa tramada nas nossas vidas que se chama vocação, uma coisa antiga, que não tem likes por ser muito séria, ao ponto de causar as mais diversas provações. Não é toda a gente que tem fibra para isso.

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  3. Por vezes parece que as pessoas fazem tudo para não arranjar um emprego, fingindo que estão a fazer precisamente o contrário. Uma vez entrevistei um candidato a trabalhar comigo que nem sabia o que a empresa a que se candidatava, fazia. Nem tentou esconder a falta de interesse. Foi logo de carrinho; ele, quanto a isso encolheu os ombros.
    Muitas das pessoas que estão no desemprego gostam muito de assim continuar. Dá menos trabalho.

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    1. Esta sociedade criou um novo indivíduo: apático, desinteressado, desempregado. Suponho que também lhe interessa, porque é o que se abstém. Também é a sociedade que não premeia o que trabalha e se esforça por atingir um objectivo, ou o que tenta conseguir que assim seja. A Valéria, neste momento, é capaz de estar a ganhar como peixeira muito mais do que eu (ou alguém como eu) lhe consegue pagar.

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  4. O conforto do conhecido tem um chamamento para algumas pessoas que parece irresistível :(. Até quereriam mudar de vida mas isso precisa de vontade de assumir riscos.

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    1. É isso mesmo. As privações deixam muitas vezes as pessoas com medo do risco. Seguem portanto um padrão, mas esquecem-se do futuro: vender peixe morto é sempre vender peixe morto, mesmo que isso pague as despesas. Salvar uma vida é outra coisa.
      Obrigada, Anouk :)

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