Atalhos de Campo


1.8.17

Mr. Nigel

Para todos os efeitos Mr. Nigel mora na minha casa, que é onde chega, subitamente, toda a sua correspondência. Eu, cidadã escrupulosa, pego nas cartas e entrego-as no posto dos correios, mas começo a ficar intrigada com este homem invisível que mudou para o meu endereço. Ainda ontem o carteiro, recém-regressado de férias e por sinal mais gordo, me tocou à campainha, suponho que com curiosidade por entregar, em mão, uma carta a Mr. Nigel. Não o critico, evidentemente. Como por infortúnio Mr. Nigel não estava no momento, perguntei-lhe se era algum registo, mas não, era só zelo. Mr. Nigel vai-se revelando um facto, um homem afirmativo. Ora bem, fantasio eu, e se Mr. Nigel fosse o homem da minha vida que se fizesse assim anunciar, conquistando primeiro a caixa do correio, e depois quem sabe, um dia, eu viesse a receber, finalmente, uma carta dele, deveras encantadora, explicando as nobres razões deste enorme incómodo? E atrevo-me mesmo a dizer, ao devolver várias cartas de um conhecido banco: pode ser que ainda por cima seja rico.