Atalhos de Campo


16.8.17

Melrax

Enquanto percorria a pé o jardim da avenida para o trabalho de todos os dias, percebi que, ainda longe de mim, um homem se afadigava para colocar qualquer coisa em cima do tronco alto de uma tília. A coisa caía, teimosa, e ele com muita paciência voltava a pô-la repetidamente no mesmo galho. Após uma última tentativa, já à vista do número do seu autocarro, subitamente correu para a paragem, largando a coisa, que voltou a cair. Fiquei a ver o autocarro partir a toda a velocidade, com um certo alívio confesso por poder resgatar o que suspeitara ser um passarinho. Terá ele olhado para trás? Ter-me-á visto a aproximar da coisa, que ele sabia ser um melro (e que eu ainda não), e terá suspirado de desalento por ma entregar assim, com uns minutos de atraso? O certo é que me esqueci rapidamente do benemérito para olhar para o topo da árvore, onde a progenitora se esforçava por chamar a atenção em esvoaçares e piares, aflita junto ao ninho, e só então realizei que, o que o meu antecessor tentara, era de todo impossível de consertar. Peguei no passarinho quase sem penas e dirigi-me para a clínica onde trabalhava, para lhe dar a primeira consulta. Há alguns anos salvei um melro, numa tarde bonita de Primavera. 

(continua)

4 comentários:

  1. Já salvei um ou outro pardalito que me entra pelos canos e fica lá dentro em pios aflitos.
    Ficamos a aguardar a continuação.

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    1. Sim, haverá desenvolvimentos; conto com esses pardalitos. :)

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  2. Também já salvei um passarito, mas não era melro. Embateu nas vidraças da empresa onde trabalho e caiu inanimado, fui apanhá-lo, não tinha nada partido mas estava muito abalado, esperei que viesse a si, aqueci-o, mimei-o, dei-lhe água e um pouco de pão e fui soltá-lo no jardim, a muito custo lá voltou a voar e foi embora :)

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    1. As aves partem, é o seu destino, mas quando ajudamos são também o nosso. :)

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