Atalhos de Campo


19.8.17

Melrax # final scene

Em poucas semanas Melrax estava pronta. No entanto o meu temor por ela fez-me procurar-lhe uma antecâmara de liberdade, uma espécie de hall de saída. Talvez seja melhor eliminar certos factos, porque estou indecisa sobre a última cena: um pássaro indefeso é salvo, queremos todos que o mundo seja melhor, a nossa atitude tornou, sem dúvida, melhor o mundo. Portanto: FIM. 

Ou não. Consegui por intermédio do meu amigo que Melrax passasse da gaiola para um espaço muito maior, onde poderia preparar melhor as asas para voar em liberdade. Pedi-lho por uma semana. O espaço, uma jaula ao ar livre e só para ela, tinha o tamanho de um quarto com paredes de rede. Transportei-a dentro da gaiola, que cobri com um pano, para que não se assustasse. Já no interior da outra abri devagar a portinhola, e esperei. Primeiro ficou imóvel, parecendo resignada ao cativeiro, até que subitamente voou certeira como um projéctil, desaparecendo dentro da pequena abertura circular de uma caixa ninho que estava pendurada na única parede de betão. Acto contínuo saiu de lá um exame de vespas, como numa cena de desenhos animados. Tapei a cara com as mãos e quis desaparecer dali para fora. Era azar a mais. Mas, mal tinha começado a virar costas vejo-a de volta, a sair ilesa como um ricochete e a pendurar-se na rede, exibindo a vitória.  

Melrax foi libertada uma semana depois, como combinado, não sem antes lhe ter sido atribuído o homicídio de outro melro mais pequeno, salvo como ela, e que vivia provisoriamente na jaula ao lado. Quanto a nós, mudámos de casa mais uma vez e fomos felizes, até que certo dia eu fiquei, e tu também voaste. 
      

6 comentários:

  1. e ficar também é uma forma de voar.

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    1. nem toda a gente é como tu, que voas maravilhosamente ficando
      digo-te que foi cá um abalo, mas um abalo necessário
      um certo alívio, mesmo, quando tudo ficou no sítio certo

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    2. Eu sei desse alívio tão bem...
      Boa noite, Teresa

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  2. Acabou tudo em bem. Os melros, como os nossos filhos, são para voar e não nos pertencem. E se há um lado de nós que teme a lonjura deles medida desde a nossa figura (como se esta não fosse uma pretensão coruja em demasia e egocêntrica qb), há outro que se orgulha, cresceram. Constroem o seu direito a nicho próprio e autónomo. Tudo que agora façam lhes pertence por inteiro. E é isto alegria bastante.
    E nós ficamos. Porque somos de ficar. Permanecer. Até quando. Entretanto, aprendemos voos de outra natureza. E voamos na eterna liberdade das palavras. Parece-me.
    Um bom domingo

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    1. Tão bonito que me fico aqui, em silêncio, a ler outra vez.
      Um bom Domingo, bea.

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