Atalhos de Campo


18.8.17

Melrax # 5

- Então o melrax, ainda é vivo? Foi assim que lhe chegou o nome, dois dias depois de eu ter entrado sorrateiramente em casa, directo à cozinha com um pássaro escondido no fundo de um saco de papel pardo, para tratar de tudo antes de fazer a surpresa ao meu filho.

Nessa altura vivíamos felizes numa espécie de redoma, tal como o pássaro cuja gaiola não significava ainda prisão, mas protecção. Eu também construíra em nossa defesa uma casa envidraçada sobre os jardins das traseiras de Lisboa, que comunicavam uns com os outros de madrugada através do voo e do canto intenso dos pássaros. Pela janela da cozinha, sempre aberta, entrara e instalara-se um ramo florido de casuarina que salpicava de amarelo a bancada, onde fora colocada a gaiola artesal suficientemente grande para conseguir albergar primeiros voos. Várias vezes suspeitei que a mélroa-mãe vinha pousar num plátano próximo para ficar a observar a cria, visto estarmos em linha recta relativamente perto da tília onde fizera o ninho. Conta-se que quando os vêem enclausurados lhes trazem bagas tóxicas para os envenenarem. Por ter ouvido isso eu nunca ficava muito tranquila quando via melros nas proximidades, mesmo não tendo qualquer certeza sobre a veracidade do facto.

Fazíamos turnos para o podermos alimentar ao longo do dia, consoante os nossos horários: primeiro eu, depois tu, depois eu, depois tu, depois eu. Aceitaste bem a obrigação, mas era eu que limpava a gaiola, como fora estipulado. Divertias-te a dar-lhe de comer, a observar-lhe as novas penas finamente matizadas que a cobriam de castanho, e que começavam a indicar tratar-se de uma fêmea. Entretinhas-te a fazê-la abrir o bico, aproximando um dedo esticado através das grades, para testares se tinha fome. Uma vez demos-lhe esparguete, porque ela o confundiu com uma minhoca e se atirou a ele com voracidade; e acabámos o jantar à gargalhada. 

Sim, Melrax estava viva, crescida, a tornar-se uma bela ave. Atrevo-me a dizer que tu também.

(continua)

8 comentários:

  1. és uma boa contadora de histórias. quase que te ouço.

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    1. gosto de ler o que escrevo em voz alta; chegou aí? :)

      obrigada, ana. então vindo de ti...

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  2. Uma ave que cresce em simultâneo com os humanos...invulgar.

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    1. Sim, também crescemos com ela, mas ela ganhou-nos, evidentemente.

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  3. é uma ave lutadora, capaz de se adaptar a todos os ambientes... nã conhecia a história das bagas... gostei pra lá de tanto :)

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    1. basta observá-la em voo rasante sobre os jardins, e ouvir os seus gritos de guerra...
      até compreendo as bagas. :)

      Obrigada para lá de tanto

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