Atalhos de Campo


14.8.17

eutanasiar uma galinha

São mulheres grandes, mãe e filha, a mãe magra a filha corpulenta. Dizem bom-dia em português delicado, sorrindo e falando baixo, mas explicam-se em inglês, tomando a filha a iniciativa, com o acordo da mãe. A pergunta é se podemos eutanasiar uma galinha. Ela ainda come e bebe água, mas já não tem qualidade de vida, é muito velha e tem um tumor enorme, e faz o desenho do papo com a mão, para eu perceber onde é. Eu respondo-lhe que não sou especialista em aves, que ocasionalmente trato pássaros, que talvez seja melhor procurar um veterinário de exóticos para o efeito. Ela continua, justificando-se, que gosta muito daquela galinha, que não quer vê-la sofrer mais, que ela costumava subir-lhe para o colo para que lhe fizesse festas, que vieram ali por ser mais perto, que talvez fosse possível ali. Eu digo-lhe que não é impossível, que percebo que alguém se afeiçoe a uma galinha, é uma ave como outra qualquer, porque não, e lembro-me de O Livro das Igrejas Abandonadas, em que há uma galinha que vai esperar a dona e a acompanha à igreja enquanto ela reza, e parece-me que estou a vê-la agora: castanha, comum, de crista murcha e sem conseguir andar, pele e osso, moribunda. Eu sei que aqui ninguém faz isso, prossegue a filha, demonstrando ter consciência do ridículo do pedido, enquanto eu a vejo já a atravessar a porta, na data marcada, com a galinha de estimação debaixo do braço, eu a recebê-la contrafeita, mas sem mostrar, porque tirar a vida é uma coisa tramada e tão triste. Aqui, continua ela, o meu vizinho já me disse que lhes torcem o pescoço, que se eu precisar lhe faz isso, e ela morre logo.

8 comentários:

  1. Pronto, a senhora tem toda a liberdade para querer eutanasiar a ave da sua estimação - em vez de ser degolada morre com suavidade, como num sono. E fica a dona descansada de facas degoladoras.
    Uma história com graça. E muito bem contada. Assim, sem querer, percebi que mandei eutanasiar um gatito. Mas ficou-me caro o pobre bichano.

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    1. Obrigada, bea. É verdade, a maioria acaba na degola e no prato. Mas para *galinhas* de estimação o protocolo é muito semelhante ao utilizado nos mamíferos, ou seja, uma injecção intravenosa de barbitúrico.

      Pela ternura das suas palavras esse bichano deve ter deixado boas recordações. Uma boa noite para si.

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  2. É tão bom ler as tuas histórias, Teresa, e há tanto tempo que não te dizia isto.
    Vai um dos bem horrorosos, póssere?

    (onde anda o Manuel Hilário, está de férias?)

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    1. Pois é, já sentia falta de merecer um elogio teu, masaculpéminha. :)
      Um dia damos mesmo um abraço lá desses, tipo #parecemosasvelhotas.

      [Suspeito que o Manuel Hilário ficou fechado numa caixa de comentários da sua amada Smilenska. Acho que ela nem deu conta... ou terá feito de propósito? Le pauvre! :)]

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  3. uma vez tive que levar um cachorro ao veterinário para morrer. tinha esgana. é um acto violento, para o dono e para o animal. sabes, Teresa, não faço muita distinção entre a doença ou velhice de um animal e a de uma pessoa. acho que os animais deviam ter cuidados paliativos, algo que lhes atenuasse a dor e pudessem morrer em paz, seja cão, gato ou galinha.
    gosto muito de te ler.
    fica muito bem.

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    1. É uma grande lição, esta do amor que transforma uma guilhotina num suave adormecer. Mas também é doloroso para quem pratica, não tenhas dúvidas disso.

      Obrigada, ana

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  4. Ternura não escolhe direcção. Já chorei por uma árvore, porque não por uma galinha?

    Beijo, Teresa :)

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    1. É tudo uma questão cultural, mesmo quando não parece. O amor também se aprende. A minha neta todos os dias se despede das plantas, antes de sair de casa.

      Um beijo também, Maria. :)

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