Atalhos de Campo


24.8.17

a mulher, o cajado e o cão

Quase todos os crepúsculos passo por uma mulher de rosto oblongo, cabelo escuro, curto e encaracolado, pele tisnada. Seria talvez injusta se dissesse que usa sempre o mesmo vestido de flores escurecidas tal como usa o rosto sério, mas a mim, que sou míope, parece-me sempre tudo igual: o cajado bem seguro na mão direita, um cão negro, com duas pintas a avisar os olhos, à trela pela mão esquerda, o mesmo esforço na subida, a mesma persuasão como uma promessa, antes de anoitecer. Suponho até conseguir distinguir-lhe duas rugas simétricas de cada lado da boca, firmes como duas sentinelas, reprimindo-lhe qualquer sorriso. Saúdo-a com a mão direita fora do volante na descida aliviada, ao que ela retribui com um seco trejeito de supremacia.

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