Atalhos de Campo


31.8.17

flebotomia

é capaz de haver uma ligação póstuma 
entre o aumento de flébotomos
e o número de corações desabitados

silêncio

em noites de meio luar
reina o mais perfeito silêncio

tu

alguém que me encanta
é alguém que eu desencanto

30.8.17

cantiga

A certa altura a voz ecoa pelos corredores e entra por onde lhe apetece, mas todos sabem a quem se dirige. Ela encolhe os ombros e cora ligeiramente quando ele se põe com aquela de amar pelos dois. Um dia também ela amou por dois, e durante demasiado tempo. Por isso sabe que não resulta. Mas ele é persistente, e, volta e meia, canta-lhe a mesma canção. Então ela aproveita para a ouvir com o sorriso indulgente de quem se perdoa.      

29.8.17

a visita eleitoral

Pela porta aberta entram o presidente e os acólitos: um bom fato distingue o presidente, que cumprimenta e se inteira do espaço, ao relance de um olhar. Os assessores distribuem-se em sorrisos empenhados no programa, iguais aos da fotografia de propaganda. Deve ser uma estopada, não fosse o deslumbre do poder. Todos se fingem muito interessados quando a senhora, que espera sentada com o cão ao colo, comenta que vai conseguir pagar as cirurgias das suas duas cadelas com o dinheiro da alfarroba que ela própria apanhou. Suponho que qualquer padre se encantaria por estes e outros nichos de mercado assim contados, durante a visita pascal.   

28.8.17

melão

Posto isto, a mulher sugeriu ao marido que abrisse a camisa rasgada pelas unhas do gato.
Apareceu um abdómen proeminente, que ela epitetou carinhosamente de melancia. 
- Dra, já agora, importa-se de fazer o curativo?  

dançar à chuva



Um dia, com uma orquestra muito jovem, começámos
a ensaiar *La Javanaise* e os músicos pararam de 
tocar. Pensei que havia algum problema e perguntei 
porque é que não tocavam. Explicaram-me que tinham
ficado muito emocionados. Muitos deles não tinham
mais de vinte anos, provavelmente só conheciam a 
minha biografia da Wikipédia e as músicas do YouTube.
(...)

27.8.17

dialética

Fiquei, sem querer, com os teus princípios elementares
de filosofia. Há muitos anos, quando ainda não sabíamos,
estava escrito o que ambos certamente lemos na página
187: Os nossos próprios sentimentos se transformam, coisa 
de que mal nos apercebemos. Vemos o que era apenas uma 
simpatia transformar-se em amor, depois degenerar, algumas
vezes em ódio. Não foi o que aconteceu: ambos lemos o mesmo
livro, mas sublinhámos coisas diferentes. Nessa altura a
nenhum de nós pareceu relevante o destino de uma simpatia.  

24.8.17

a mulher, o cajado e o cão

Quase todos os crepúsculos passo por uma mulher de rosto oblongo, cabelo escuro, curto e encaracolado, pele tisnada. Seria talvez injusta se dissesse que usa sempre o mesmo vestido de flores escurecidas tal como usa o rosto sério, mas a mim, que sou míope, parece-me sempre tudo igual: o cajado bem seguro na mão direita, um cão negro, com duas pintas a avisar os olhos, à trela pela mão esquerda, o mesmo esforço na subida, a mesma persuasão como uma promessa, antes de anoitecer. Suponho até conseguir distinguir-lhe duas rugas simétricas de cada lado da boca, firmes como duas sentinelas, reprimindo-lhe qualquer sorriso. Saúdo-a com a mão direita fora do volante na descida aliviada, ao que ela retribui com um seco trejeito de supremacia.

23.8.17

valeria

Esperava em pé na esplanada vazia do café fechado, agarrada ao telemóvel. Vinha para uma entrevista de emprego. Percebi imediatamente que era ela. Não existia mais ninguém: calções pretos muito curtos, de bainhas desfiadas, top branco, sandálias, um enorme rabo-de-cavalo negro. Lamentei o facto de ser o dia de folga, mas ela pareceu-me bastante à-vontade, e sentámo-nos mesmo ali. Vencendo o impacto negativo do outfit, comecei por lhe perguntar que idade tinha. Trinta, disse-me, mas achei-a pouco convicta. Estou cá há seis anos, e eu comecei a fazer contas de cabeça, 24... Então, e tem o curso de veterinária... que sim, feito na Rússia, seis anos - mais contas - depois os estágios, mandaram-me para um matadouro, e tal. A Valéria trabalha na praça a vender peixe. Entro às seis e meia da manhã e saio às três da tarde, agora às quatro porque é Verão. E nunca pensou em exercer a sua profissão? Sim, mas querem experiência, eu não tenho. Pode começar por aprender, sendo auxiliar de consultório, e, depois, adquirindo prática, chegar a dar consultas. Nunca pensei nisso, é uma boa ideia. 

Agora os olhos de Valéria eram dois peixes de rio a rabear nas órbitas e toda ela me parecia escorregadia, plena de ácidos gordos Ómega-3, a derreterem, subitamente, chiando sobre um assador. Suponho que eu devia assemelhar-me a uma rede a subir em esforço o rio, ou a uma cana de pesca de qualidade duvidosa a aproximar-se de forma ameaçadora. Por isso não se interessou muito, nem lutou. Passado pouco tempo levantou-se, despediu-me estendendo umas unhas de gel azul turquesa, para o caso de eu não ter reparado, e partiu num Fiat como um sargo assustado, a favor da corrente.         

22.8.17

aterrador, meu caro Watson

IBM Watson, o supercomputador, traçou hoje o meu perfil em segundos, 
baseado no envio de um texto deste blogue, o que não passou de uma 
brincadeira do meu filho. Mas o certo é que falhou por pouco:

*You are skeptical, somewhat inconsiderate and can be perceived as compulsive.
You are independent: you have a strong desire to have time to yourself. You are philosophical: 
you are open to and intrigued by new ideas and love to explore them. And you are reserved: 
you are a private person and don't let many people in.
Your choices are driven by a desire for organization.
You are relatively unconcerned with both achieving success and independence.
You make decisions with little regard for how they show off your talents. 
And you welcome when others direct your activities for you.*

Eis o link:

21.8.17

brexit

Durante a tarde sou convidada para visitar o restaurante que abriu ao lado do consultório. Pergunto pelo empregado que costumo ver na esplanada com uma meia de cada cor e padrão, ténis e calções coloridos, três argolas no lóbulo da orelha esquerda, muito alto e com um inglês perfeito. É inglês? - interrogo, quando ele aparece. Britânico, corrige em português. E depois para provar - como dizia - que também era cidadão do mundo, levantou a t-shirt e exibiu um letreiro em arial XXL, tatuado a bold ao fundo das costas: MADE IN CHINA.

19.8.17

rascunho

Melrax # final scene

Em poucas semanas Melrax estava pronta. No entanto o meu temor por ela fez-me procurar-lhe uma antecâmara de liberdade, uma espécie de hall de saída. Talvez seja melhor eliminar certos factos, porque estou indecisa sobre a última cena: um pássaro indefeso é salvo, queremos todos que o mundo seja melhor, a nossa atitude tornou, sem dúvida, melhor o mundo. Portanto: FIM. 

Ou não. Consegui por intermédio do meu amigo que Melrax passasse da gaiola para um espaço muito maior, onde poderia preparar melhor as asas para voar em liberdade. Pedi-lho por uma semana. O espaço, uma jaula ao ar livre e só para ela, tinha o tamanho de um quarto com paredes de rede. Transportei-a dentro da gaiola, que cobri com um pano, para que não se assustasse. Já no interior da outra abri devagar a portinhola, e esperei. Primeiro ficou imóvel, parecendo resignada ao cativeiro, até que subitamente voou certeira como um projéctil, desaparecendo dentro da pequena abertura circular de uma caixa ninho que estava pendurada na única parede de betão. Acto contínuo saiu de lá um exame de vespas, como numa cena de desenhos animados. Tapei a cara com as mãos e quis desaparecer dali para fora. Era azar a mais. Mas, mal tinha começado a virar costas vejo-a de volta, a sair ilesa como um ricochete e a pendurar-se na rede, exibindo a vitória.  

Melrax foi libertada uma semana depois, como combinado, não sem antes lhe ter sido atribuído o homicídio de outro melro mais pequeno, salvo como ela, e que vivia provisoriamente na jaula ao lado. Quanto a nós, mudámos de casa mais uma vez e fomos felizes, até que certo dia eu fiquei, e tu também voaste. 
      

18.8.17

canção de voar



take this broken wings and learn to fly

Melrax # 5

- Então o melrax, ainda é vivo? Foi assim que lhe chegou o nome, dois dias depois de eu ter entrado sorrateiramente em casa, directo à cozinha com um pássaro escondido no fundo de um saco de papel pardo, para tratar de tudo antes de fazer a surpresa ao meu filho.

Nessa altura vivíamos felizes numa espécie de redoma, tal como o pássaro cuja gaiola não significava ainda prisão, mas protecção. Eu também construíra em nossa defesa uma casa envidraçada sobre os jardins das traseiras de Lisboa, que comunicavam uns com os outros de madrugada através do voo e do canto intenso dos pássaros. Pela janela da cozinha, sempre aberta, entrara e instalara-se um ramo florido de casuarina que salpicava de amarelo a bancada, onde fora colocada a gaiola artesal suficientemente grande para conseguir albergar primeiros voos. Várias vezes suspeitei que a mélroa-mãe vinha pousar num plátano próximo para ficar a observar a cria, visto estarmos em linha recta relativamente perto da tília onde fizera o ninho. Conta-se que quando os vêem enclausurados lhes trazem bagas tóxicas para os envenenarem. Por ter ouvido isso eu nunca ficava muito tranquila quando via melros nas proximidades, mesmo não tendo qualquer certeza sobre a veracidade do facto.

Fazíamos turnos para o podermos alimentar ao longo do dia, consoante os nossos horários: primeiro eu, depois tu, depois eu, depois tu, depois eu. Aceitaste bem a obrigação, mas era eu que limpava a gaiola, como fora estipulado. Divertias-te a dar-lhe de comer, a observar-lhe as novas penas finamente matizadas que a cobriam de castanho, e que começavam a indicar tratar-se de uma fêmea. Entretinhas-te a fazê-la abrir o bico, aproximando um dedo esticado através das grades, para testares se tinha fome. Uma vez demos-lhe esparguete, porque ela o confundiu com uma minhoca e se atirou a ele com voracidade; e acabámos o jantar à gargalhada. 

Sim, Melrax estava viva, crescida, a tornar-se uma bela ave. Atrevo-me a dizer que tu também.

(continua)

17.8.17

melrax # 4

tão feiinho, como é que o vou apresentar ao meu filho

(ainda) Melrax # 3

Claro que o melro é um sobrevivente, pensava eu, ao vê-lo engolir comida para gato sem a menor relutância. Afinal não é ele, como diz Kundera, que há séculos vem desistindo de viver no campo para conquistar as principais cidades da Europa? Não o recrimino, se o campo é, tantas vezes ainda hoje, uma saraivada de chumbos. E Melrax, o olisipógrafo, também conquistou Lisboa.

(continua)

(continuo) Melrax # 2

A história podia ficar assim, mas eu gosto de coscuvilhar nela, por isso vou dizer que ao ultrapassar a porta da clínica, com um passarinho aconchegado na mão, senti a frescura extraordinária de uma árvore frondosa, e fiquei com uma certeza: ia salvá-lo. Fui imediatamente rodeada pelas auxiliares, olhem o que trago aqui, e telefonei a um amigo para perguntar o que podia dar-lhe como alimento, pois sabia que era insectívoro. - Para já, comida de gato - foi a resposta -, depois procura uma mistura para insectívoros que há à venda nas lojas de animais, e faz uma papa com água morna. Agradeci e desliguei, radiante. O problema estava resolvido para aquele momento: foi só abrir uma lata para gatinhos e acreditar que ele abriria o bico. Foi o que fez, mal aproximei a seringa com a pasta, demonstrando enorme vontade de viver. 

(continua)  

16.8.17

Melrax

Enquanto percorria a pé o jardim da avenida para o trabalho de todos os dias, percebi que, ainda longe de mim, um homem se afadigava para colocar qualquer coisa em cima do tronco alto de uma tília. A coisa caía, teimosa, e ele com muita paciência voltava a pô-la repetidamente no mesmo galho. Após uma última tentativa, já à vista do número do seu autocarro, subitamente correu para a paragem, largando a coisa, que voltou a cair. Fiquei a ver o autocarro partir a toda a velocidade, com um certo alívio confesso por poder resgatar o que suspeitara ser um passarinho. Terá ele olhado para trás? Ter-me-á visto a aproximar da coisa, que ele sabia ser um melro (e que eu ainda não), e terá suspirado de desalento por ma entregar assim, com uns minutos de atraso? O certo é que me esqueci rapidamente do benemérito para olhar para o topo da árvore, onde a progenitora se esforçava por chamar a atenção em esvoaçares e piares, aflita junto ao ninho, e só então realizei que, o que o meu antecessor tentara, era de todo impossível de consertar. Peguei no passarinho quase sem penas e dirigi-me para a clínica onde trabalhava, para lhe dar a primeira consulta. Há alguns anos salvei um melro, numa tarde bonita de Primavera. 

(continua)

14.8.17

Posted by Cioran

Houve um tempo em que, de cada vez que sofria uma afronta, 
para afastar de mim qualquer veleidade de vingança, me 
imaginava muito tranquilo no meu túmulo. E acalmava-me 
imediatamente. Não desprezemos demasiado o nosso 
cadáver: ele pode ajudar-nos em certas ocasiões.

eutanasiar uma galinha

São mulheres grandes, mãe e filha, a mãe magra a filha corpulenta. Dizem bom-dia em português delicado, sorrindo e falando baixo, mas explicam-se em inglês, tomando a filha a iniciativa, com o acordo da mãe. A pergunta é se podemos eutanasiar uma galinha. Ela ainda come e bebe água, mas já não tem qualidade de vida, é muito velha e tem um tumor enorme, e faz o desenho do papo com a mão, para eu perceber onde é. Eu respondo-lhe que não sou especialista em aves, que ocasionalmente trato pássaros, que talvez seja melhor procurar um veterinário de exóticos para o efeito. Ela continua, justificando-se, que gosta muito daquela galinha, que não quer vê-la sofrer mais, que ela costumava subir-lhe para o colo para que lhe fizesse festas, que vieram ali por ser mais perto, que talvez fosse possível ali. Eu digo-lhe que não é impossível, que percebo que alguém se afeiçoe a uma galinha, é uma ave como outra qualquer, porque não, e lembro-me de O Livro das Igrejas Abandonadas, em que há uma galinha que vai esperar a dona e a acompanha à igreja enquanto ela reza, e parece-me que estou a vê-la agora: castanha, comum, de crista murcha e sem conseguir andar, pele e osso, moribunda. Eu sei que aqui ninguém faz isso, prossegue a filha, demonstrando ter consciência do ridículo do pedido, enquanto eu a vejo já a atravessar a porta, na data marcada, com a galinha de estimação debaixo do braço, eu a recebê-la contrafeita, mas sem mostrar, porque tirar a vida é uma coisa tramada e tão triste. Aqui, continua ela, o meu vizinho já me disse que lhes torcem o pescoço, que se eu precisar lhe faz isso, e ela morre logo.

13.8.17

um certo tipo

há um certo tipo de amor sem urgências, premonições, sobressaltos
aquele tipo (de amor) que não te deixa em alerta permanente
com os cinco sentidos sempre ligados
e um medo a piscar

mas não é o amor maternal

bicos de pés

ajoelhar.

pés

os homens rezam sem asas

10.8.17

devolução

Dentro da pequena caixa de estanho com a forma ovóide de um coração liso, colocada sobre o móvel do escritório, encontras o outro coração. É negro como te lembras, o artífice foi um sem-abrigo, ladrão de palácios. Encomendaste-o no basalto daquele teatro em demolição e depois mandaste-o encastoar em ouro branco, para que o pudesse pendurar no meu fio. Nunca o usei, mas guardei até hoje aquela ínfima poção de negro vulcânico, polida pelo sebo de umas mãos infinitamente sujas. Está intacto, ainda é o teu.   

9.8.17

tributo

advertência

Limpei-lhes o pó ontem, são dois pisa-papéis em vidro, bem bonitos, 
mas agora inúteis. Um é de vidro negro, o outro transparente. Sequestram, 
cada um, o seu coração vermelho. Este é o teu, disse-me apontando para o 
transparente, ao oferecer-me ambos; e este é como o meu, porque tem um 
fundo negro. Porém, o meu tinha sobre ele gravados três traços negros; 
o outro, três traços brancos. E foi isso mesmo que aconteceu. 

8.8.17

biodiversidade

A meio do jantar, a criança aponta para o tecto com insistência, demonstando ter a noção de estar ali a acontecer algo diferente e digno de ser partilhado. Balbucia também qualquer coisa. Olhamos todos, quase ao mesmo tempo, seguindo o seu pequeno e adorável indicador: a osga, que estivera sumida por uns dias, tinha voltado, e estava em grande actividade a caçar insectos. A criança não demonstra medo e ninguém revela qualquer desconforto com a presença do pequeno sáurio, antes pelo contrário.      

zebra


5.8.17

a preto e branco

(...)
Como aquela fotógrafa americana que morreu na miséria
e deixou centenas de fotografias, e de rolos por revelar 
por falta de dinheiro, encontrados numa caixa postal após 
a sua morte, com excelentes fotografias que ela nunca viu.

Atalhos,7/11/14


Tinha-lhe perdido o nome. Sei que, provavelmente, Vivian Maier 
preferiria assim, manter-se anónima. Mas hoje reencontrei-o e 
reencontrei-a. Fotografava desapiedadamente, como uma cientista 
que estivesse a estudar o comportamento humano. Talvez por isso
tivesse mantido a sua obra em apertado segredo, enquanto viveu.


home movie


(...)
Apaixona-me, por isso, a história de Vivian Maier(1926-2009). O seu primeiro trabalho é, em Nova Iorque, ao balcão de uma loja de doces. Transfere-se depois para Chicago, e passa a ser ama na casa de uma família de North Side. Nunca se casou. Aprendeu inglês indo ao cinema e ao teatro. Andava sozinha. No dia de folga pegava na sua Rolleiflex de médio formato e ia fotografar. Calcula-se que tenha feito perto de cem mil fotografias, num preto e branco rigoroso, que não mostrou nunca a ninguém. Fotografou a rua: os moradores dos bairros, as crianças brincando, os bêbados, as senhoras coquetes, os homens das mudanças, as marchas, as manifestações, os pequenos enredos de esquina, os chanfrados, o alarde das montras ou a confidência sempre diferente que um olhar, ao mesmo tempo reserva para si e escancara. No mês anual de folga, acontecia fazer uma viagem, mantendo a mesma preocupação de registar fotograficamente a rua. Quando morreu, os seus anónimos pertences foram vendidos em leilão, sem que se fizesse ideia de que se estava a entregar, por um escasso punhado de dólares, a preciosa obra de uma das grandes criadoras do século XX.

José Tolentino Mendonça/O Verbo Fotografar
Revista E, 5/Agosto/2017  



declaração de amizade

E foi ali, à sombra da canícula, que jurámos amizade. Chegámos, felizmente, à conclusão, ultrapassando as habituais situações de envolvimentos e arrependimentos, de que ambos tínhamos características para sermos bons amigos e maus amantes. Depois despediu-se e eu continuei a ler o jornal. Lembrei-me da dedução do juiz, aquando do meu divórcio, felicitando os ex-cônjuges pela idoneidade demonstrada no acordo de separação. Mas claro que não lho disse. 

2.8.17

Agosto

Vou atrasar-te o mais possível
fazer toda a fraude que puder com as minhas horas
gaguejar os teus minutos
fechar os olhos aos novos segundos
soletrar dias pendentes 
mergulhar devagar no sol das tuas noites quase frias.
Vou desfocar o registo da tua lua toda
e perder tempo, muito tempo 
a vê-la afastar-se por entre os ramos da figueira alta,
apanhar-lhe os últimos figos 
e ficar a comê-los no luar quente e maduro.
E quando o vento já não fizer estremecer nenhuma folha insegura
deixarei presas à chuva
todas as rosas brancas que cultivei para ti, 
emersas no silêncio sem leds do céu inteiro.
E quando a lua minguar e as flores empalidecerem
e as Monarcas tiverem migrado para o México
à procura de outras zínias mais coloridas e mais novas,
eu já te terei atrasado tanto
que um pequeno cristal em tua vez
ficará como o único Verão,
que valeu em mim
a tua pena.

1.8.17

Mr. Nigel

Para todos os efeitos Mr. Nigel mora na minha casa, que é onde chega, subitamente, toda a sua correspondência. Eu, cidadã escrupulosa, pego nas cartas e entrego-as no posto dos correios, mas começo a ficar intrigada com este homem invisível que mudou para o meu endereço. Ainda ontem o carteiro, recém-regressado de férias e por sinal mais gordo, me tocou à campainha, suponho que com curiosidade por entregar, em mão, uma carta a Mr. Nigel. Não o critico, evidentemente. Como por infortúnio Mr. Nigel não estava no momento, perguntei-lhe se era algum registo, mas não, era só zelo. Mr. Nigel vai-se revelando um facto, um homem afirmativo. Ora bem, fantasio eu, e se Mr. Nigel fosse o homem da minha vida que se fizesse assim anunciar, conquistando primeiro a caixa do correio, e depois quem sabe, um dia, eu viesse a receber, finalmente, uma carta dele, deveras encantadora, explicando as nobres razões deste enorme incómodo? E atrevo-me mesmo a dizer, ao devolver várias cartas de um conhecido banco: pode ser que ainda por cima seja rico.

tacto

Voava desorientada quando pousou sobre a terra, abrindo completamente as asas e fechando-as muito devagar até as unir ao máximo, no que parecia querer ganhar fôlego para iniciar nova volta, larga e atabalhoada, sobre o jardim. Fui a correr buscar a máquina fotográfica e tentei tirar-lhe uma fotografia em voo, sem grande sucesso, mas entretanto ela veio aterrar aos meus pés. Aproximei-me devagar e estendi-lhe um dedo sob o corpo. Subiu confiante, como se estivesse à espera de me dar oportunidade para ter aquele gesto. Senti-lhe as patinhas muito leves a agarrar as minhas impressões digitais e elevei-a no ar, onde ela pertencia.     

toma