Atalhos de Campo


3.7.17

sakura

Era um sábado tranquilo. Sentada à secretária lia a revista do meu semanário preferido, quando entrou uma mulher alta e muito jovem com uma caixa de sapatos na mão. A tampa estava perfurada com vários orifícios toscos e a rapariga sentou-se à minha frente, colocando a  embalagem com cuidado no colo. - Tem aí um passarinho... - Sim, caiu do ninho, parece-me que tem uma pata partida. - Vamos vê-lo, então. Levantei-me e dirigi-me para a sala das consultas. Ela seguiu-me e colocou a caixa sobre a marquesa. Fui levantando a tampa com cautela, preparada para um voo com direcção incerta. Aninhado no fundo, apoiado sobre os metatarsos, estava um pequeno pardal com o corpo ainda mal coberto de penas, evidenciando extrema debilidade. Peguei-lhe para verificar se tinha alguma fractura, mas não. Essa era a parte boa. - Ele já come, - afirmou, enquanto eu o devolvia à caixa - demos-lhe umas sementes de sésamo esta noite, que era o que havia lá em casa... - E de manhã estava tudo espalhado. - concluí. - Sim... - Mas isso não quer dizer que tenha comido. Com esta idade ainda não comem sozinhos. É preciso dar-lhes a comer uma papa própria, com uma seringa directamente no bico, mimetizando os pais, de duas em duas horas. - De duas em duas horas?!! - Sim, excepto de noite. Se quer tentar salvá-lo tem que ser assim, não há outra forma. Mas vai valer a pena! - disse-lhe a sorrir. Também lhe ensinei a fazer um ninho, com uma meia velha forrada por dentro com papel absorvente, trocado com frequência, para que não se sujasse com as próprias fezes. Ofereci-lhe uma seringa e o meu telefone, para qualquer dúvida. Tinham entretanto passado quinze dias e foram algumas as vezes que pensei que o pardalito talvez não tivesse conseguido sobreviver. Mas este sábado ele fez-me desviar novamente a atenção do jornal, desta vez com um sorriso de contentamento. A caixa de sapatos tinha sido substituída por uma pequena gaiola, que ao atravessar a porta deixou um rasto de sol. O pardal agitava-se durante a nossa conversa, saltitando no fundo, enquanto a dona recebia mais alguns conselhos para o futuro, até o conseguir libertar em segurança. - Já tem nome? - Hope, chamamos-lhe hope. - Fica-lhe bem esse nome, e ainda melhor porque parece-me ser uma fêmea. Estava salvo, e ela tinha vindo, assim, agradecer, com a simplicidade de uma haste de cerejeira em flor.