Atalhos de Campo


8.7.17

o homem que só lia blogues extintos

Era um homem pacato, nem gordo nem magro, de estatura média, um homem comum de meia-idade. Morava sozinho e era discreto, cumprimentava os vizinhos com parcimónia, evitando qualquer tipo de diálogo quando se cruzava com eles na rua, ou na escada do prédio antigo onde morava. Viam-lhe por vezes um saco de compras, geralmente à sexta-feira, e sempre uma mala negra a tiracolo que ele transportava com cuidado, escudando-a com a mão. Chegava tarde do trabalho e mal entrava em casa dirigia-se à cozinha para abrir uma lata de comida para o gato tigrado que  não o largava, saltando para a bancada com miados de súplica. Depois do jantar, - invariavelmente comia a ouvir ópera - colocava o tabuleiro no chão, ao lado do sofá que partilhava com o gato, para retirar do interior da mala um portátil pequeno que colocava sobre os joelhos. E fazia sempre a mesma coisa, dedicava-se a usar o motor de busca para encontrar blogues conhecidos. Ia ao fim das listas de leitura recomendadas e continuava, noite após noite, um já longo trabalho de pesquisa: a procura de blogues extintos. Geralmente eram bons blogues, com vários anos, bem escritos, com leitores fieis, mas que inesperadamente tinham terminado. Então fazia-se seguidor, um seguidor póstumo, colocando a fotografia de perfil do seu gato Bashô no início da grelha, ali bem em evidência. Era um pouco mórbido, concordava, rindo-se sozinho, mas ele não entendia aquela avidez da leitura imediata e do esquecimento quase imediato. Por isso voltava todas as noites para ler tranquilamente aqueles blogues tristes como diários cansados, à procura do entusiasmo dos seus primeiros dias.