Atalhos de Campo


29.7.17

na idade do ferro

Oiço o ruído de um automóvel, portas a bater e vozes de seguida. Continuo a enrolar a mangueira, tentando descortinar se o som vem de dentro da propriedade. Quando tenho a certeza que vem, dirijo-me à entrada para ver quem é. Encontro uma família de ciganos: a mãe de criança ao colo, os mais velhos, pendurados no baloiço da alfarrobeira sorvem gelados e um deles já trepa para a casa da árvore, o pai ainda dentro do Ford Cortina azul ferrugem estacionado no caminho, como recém-chegados a um parque de diversões. Pergunto o que desejam. Só viemos varejar a alfarrobeira aqui do terreno em frente, diz o homem ao sair do carro. E esta, também podemos? Digo que sim, do lado de fora, que não quero o jipe sujo, nem embalagens atiradas para o chão. Respondem em coro que sim. Fico a vê-los a estender um enorme plástico verde e a usarem as canas com destreza. As crianças também, terminado o gelado. Entretanto uma galinha canta demoradamente, para anunciar que acabou de pôr um ovo, e um cavalo relincha, numa quinta próxima. Nada mudou assim tanto desde tempos imemoriais: os jogadores é que mudam, mas o jogo, esse é sempre o mesmo.