Atalhos de Campo


6.7.17

duas razões

Duas razões de extrema importância me levam àquele café junto à estrada: o lixo e as contas para pagar no multibanco. A primeira arrasta-me para lá de manhã, a segunda ao fim do dia. Aproveito então para me organizar como segue: se levo o lixo, tomo um café antes da reciclagem; se vou pagar contas, bebo uma imperial depois. A Patrícia é muito simpática e enche-me um pires com amendoins para acompanhar. Quando aparece na esplanada invariavelmente estou a dedilhar dígitos na caixa multibanco, e ela olha para o lado para me perguntar onde coloca a cerveja. Indico-lhe a mesa, protestando: - Quando aqui venho à tarde fico sempre mais pobre! - e ela ri-se. Depois sento-me a descascar os amendoins e a beber a imperial devagar, devagar. Devagar. Mas aquilo que me leva a escrever hoje, contra a minha vontade de escrever, é uma coisa extraordinária que presenciei um dia destes de manhã, ou seja, quando vou reciclar o lixo. Na mesa ao lado estavam dois homens concentrados na partilha de tranquilas banalidades matutinas, enquanto eu bebia o meu café e observava uma mulher gorda sentada a uma mesa relativamente perto. De blusa opada pelas muitas carnes de lhe sobravam por todo o lado, qual quadro de Botero, a mulher acolhia a ternura de uma criança, que ora a afagava ora a beijava, e os seus braços abriam-se delicadamente para a abrigar no colo imenso, macio e flácido, pleno de maternidades. Nisto um dos homens, inesperadamente, disse: A ternura é uma coisa maravilhosa, não é? E a pergunta ficou assim, suspensa no ar, arrebatadora, até que o outro concordou. Eu também, em silêncio. Nós os três enfim, magros de festas.