Atalhos de Campo


10.7.17

barrocal

Sentada ao seu lado no automóvel, ia sentindo uma vez mais que médicos e veterinários têm muito pouco em comum. A conversa era sobre as hepatites, A, B, C, (porque também no cão há hepatites virais), e a vacina que eu levava comigo na mala isotérmica tinha precisamente uma dessas valências. Aquilo que estudamos é idêntico, actuamos sobre corpos doentes, mas para todos os efeitos um médico é prioritário porque o homem é prioritário. Assim sendo um cão é secundário e o veterinário passa a ser um médico secundário; e quando um médico e um veterinário se juntam no mesmo habitáculo esse complexo parece acentuar-se. Médica reformada antes do tempo, mas dona do seu tempo, como referiu. E depois havia feito uma reflexão e chegado à conclusão de que um médico é sempre um médico. Concordei. Mesmo que a medicina vá progredindo e os tratamentos se actualizem, as doenças, na sua maioria, continuarão a ser as mesmas de sempre. E há a experiência, dizia-lhe eu, a experiência deveria ser considerada património da humanidade. Sim, eles quando nos propuseram a reforma antecipada não se lembraram disso. Chegámos a um portão fechado sobre um jardim, que um muro caiado separava das cigarras, do calor e da secura. Comentei o contraste, a orquestra das cigarras à hora de mais calor, o mar ao longe, uma paisagem de Sophia. Um barrocal, rematou. Pedras e barro, acrescentei, tenho conquistado o meu jardim às pedras e ao barro. A quinta tinha o nome de uma doença, mas o cão estava saudável. Era enorme e meigo como o mar, visto assim, de longe.