Atalhos de Campo


7.6.17

um lugar à mesa

De noite, nem sempre, o telefone toca. Ela atende mas vê primeiro o rosto reflectido no ecrã, e, instintivamente, estuda o melhor ângulo para ser vista, compõe o cabelo, diminui a intensidade da luz. Ela sabe da importância disto, ou suspeita, e mesmo que não seja o melhor momento, ela ensaia a melhor expressão, a que lhe vem de dentro, a que ela quer que transpareça toda no seu rosto, pousando os talheres, interrompendo alguma tarefa, tornando-se disponível. Depois aparece a criança, sentada à mesa, do outro lado. A criança vê a avó, e a avó dá quase sempre uma grande gargalhada sobre a birra da neta, que vira a cara à colher de sopa. A criança reconhece-lhe a voz e sorri, e abre a boca e engole, e quer mais, distraída. Ela então continua, porque sabe da importância disto, a comunicar com a criança, a estimulá-la, a cantar. Depois esconde-se, desaparece da moldura - não há, diz - não há, é o gesto em forma de resposta. E quando volta a aparecer, sempre a sorrir, os sorrisos voltam a encontram-se. Até ao fim da sopa.