Atalhos de Campo


3.6.17

um copo de rosas

Não troco nada do que não tenho pelo muito que conquistei. Respirar a liberdade do vento; entrar tarde no silêncio da casa quando já metade da lua se apoderou do céu; demorar-me no jardim a colocar estacas nos gladíolos de dois metros, enquanto Cópia - o gato preto que imita Princess, a gata, para se infiltrar na casa do dono desta - cruza agora as patas à frente e me observa do alto do muro, com a atenção dos humanos, percebendo tudo, mas tudo mesmo, sobre essa liberdade felina, esquiva e sinuosa que tomou conta de mim faz seis meses; cortar os rebentos de laranjeira junto ao pé, aproximá-los do rosto e inspirar ao máximo, reter nos pulmões o perfume que se solta do caule e das folhas tenras, depois enfiá-los no meio das rosas, num copo alto; ligar a música e ficar a ouvir o piano que vem do escuro; comer uma fatia de pão, outra de queijo e beber um copo de vinho tinto à luz de uma vela. Nada sabes, mas eu sei que sou todos os poemas que li, tudo o que vi, sou um mundo que tu nunca, mas nunca, poderás encarcerar na melhor versão que tenhas de mim. Escapar-te-ei sempre.