Atalhos de Campo


15.6.17

cumplicidade

O homem viúvo entrou a sorrir, com o cachorrinho deitado no berço das mãos. De compleição muito antiga a sua figura magra e longa inspirava nobreza. Uma nobreza enlutada e triste. Como uma oferenda, o pequeno cão adormecido nas duas mãos abertas provocou um silêncio fresco semelhante ao da sombra de uma velha alfarrobeira, aberta num deserto de sol. E foi com enorme cuidado que o colocou sobre a marquesa. E o cão não acordou, dada a grande confiança, já muito antiga, que sentia no homem. A barriga sardenta continuou a oscilar sob os meus olhos atentos, cadenciada com o ritmo do sono, e as orelhas, abandonadas a uma anestesia de paz, caíram soltas para ambos os lados da cabeça, flectida e docemente imóvel, macia e branca. Peguei no estetoscópio para me acostar ao seu coração, que sabia tranquilo, ainda a afeiçoar-se ao cronómetro da vida. Quando o vacinei dormia, e nem se mexeu.