Atalhos de Campo


13.6.17

asynchronous

Uma tarde, já não me lembro qual, mas sei que era uma tarde amena no início daquela Primavera, joguei forte e ainda bem que perdi. Por causa da quantia que perdi morrerei mais cedo, talvez vários anos. Estávamos sentados numa esplanada em mesas diferentes, mas suficientemente próximos um do outro para ninguém nos ouvir, e nem nos demos ao trabalho de mudar de lugar. Ele disse-me que tinha um cancro, e foi assim, a seco, que degluti. É na garganta, acrescentou, mas ele que se cuide, não sabe com quem se mete, que eu vou vencê-lo. Senti uma tristeza enorme, vinda não sei de onde, talvez do céu, que se abateu imediatamente cinzento sobre mim, talvez do novíssimo verde, tão promissor nas primeiras folhas, que adivinhei arremessadas para um Outono gelado. Ele ali, a morrer ao meu lado, a quase vinte anos de mim, e eu a vinte e seis mil anos-luz da Via Láctea, sem saber bem o que fazer à vida. Então, sem que soubesse, jurei-lhe o meu tempo, o tempo que fosse preciso para que pudesse cumprir a sua promessa. Viveu, ainda vive.