Atalhos de Campo


19.6.17

açoite

Em 2017 um raio tremendo sacrificou uma vasta região do centro de Portugal. Ao que parece atingiu uma árvore que ardeu e o fogo propagou-se rapidamente, porque, ao que parece, se seguiu uma espécie de tornado que disparou partículas incandescentes para longe, num turbilhão de labaredas incontroláveis. Cercadas pelo fogo, as populações de pequenos lugares e aldeias pediram socorro. Ao que parece ninguém respondeu ao apelo, e, como heróis, com a água que tinham, com os braços que tinham, com os ramos que sobravam, com as forças que já não tinham, ali ficaram a lutar pelo que era seu e dos vizinhos, acenando ao único carro dos bombeiros que não parou, como se fosse o penúltimo dia de muitos rescaldos. Alguns foram atingidos pelo pânico e tentaram fugir, e, ao que parece não encontraram saída, ou a saída que lhes indicaram era um beco incendiado com uma placa a arder sobre o asfalto terminal. Chegaram, ao que parece, até onde implodiam muitas árvores em jorros de cinza e ali ficaram encurralados, e foram uma vez mais o grito sufocado de ninguém. E parece que foi isto mesmo que aconteceu em Portugal, em 2017, dito até à exaustão por quem sobrou. Era Sábado, quando os galos cantaram nessa manhã tudo parecia normal, excepto uma inquietude, tão imperceptível como uma ligeira tremura entre os galhos secos da floresta, vergados pelo calor. As crianças tomaram o pequeno-almoço e vestiram-se para ir brincar. Ia jurar que uma delas até levou um açoite.       

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