Atalhos de Campo


27.6.17

a um cão castanho

Entra no consultório perturbada, a chorar. Pede-me ajuda porque há ali, à beira da estrada, um cão atropelado, diz, num inglês balbuciante. Peço desculpa à senhora inglesa com quem estou a rever o processo do seu cão. Digo-lhe que pode voltar dentro de meia hora, talvez um pouco mais, mas ela interessa-se pela cor do cão atropelado. A mulher que chora e mostra a mão mordida pelo cão, responde que é castanho e que está num sofrimento horroroso, que não pode ficar ali, a morrer. Percebo a razão da pergunta: há um cão malhado de preto a circular pela vila, que é protegido pelo dono do café da esquina, perto da bomba de gasolina; tememos ambas por ele, mas não é o mesmo. Tememos sempre mais por tudo aquilo que já conhecemos. Meto o estetoscópio no bolso da bata e enfio-me no jipe com ela. A cerca de um quilómetro, antes de uma curva apertada, há um muro caiado. É aí que está o cão, imóvel, na berma da estrada. É grande, mas ainda cachorro. Tem uma coleira de cabedal da cor do pelo, já antiga, talvez herdada de outro cão. Uma amiga da pessoa que me trouxe estende-me uma trela fina, mas avisa-me que ele morde. Sim, ele morde porque tem dor, respondo-lhe. Faço um nó largo com a trela e vou falando com ele, digo-lhe que não vai doer com as pupilas, - só as pupilas abrem para a alma e ele parece compreender isso, porque não gane nem tenta esquivar-se - enquanto lhe enfio a fita no focinho e a aperto atrás do pescoço com firmeza. Colocamo-lo numa toalha grande antes de o elevarmos para o interior do jipe. Apercebo-me de que tem fractura da coluna. Solto as pontas da fita, para que faça a viagem mais confortável. Pergunto-lhes o que estão a pensar fazer. A que não chora, a líder das operações, a de cabelo lilás e olhos frios de Husky siberiano, responde, exibindo uns dentes brancos como a neve ao sol, que tem um veterinário conhecido, a vinte minutos dali, mas que me leva de volta. Agradeço-lhe e digo-lhe que vá sem demora. Meto-me ao caminho a pé, a sentir-me estranhamente leve, e logo a seguir, numa sebe de loendros em flor, respiro fundo, antes de devolver o olhar daquele cão.