Atalhos de Campo


23.6.17

de viva voz

Certa vez um amigo meu disse uma coisa tocante sobre a mãe: tenho tanta pena, mas já não me lembro da sua voz, e isso foi de todas as coisas dela a que mais me custou perder. Também eu, anos mais tarde, hoje mesmo, precisava de não ter perdido a voz do meu pai. Muitas vezes a teria ouvido, se aquela mensagem deixada num dia em que não pude atender, ficasse gravada por tempo indeterminado. 

21.6.17

Hão-de ver

Este ano a velha pereira enfeitou-se com muitas flores. Depois, parecendo envergonhada e algo ridícula cobriu-se de folhas e, por função, de pequenos, verdes, e abundantes, frutos. E se as regas e adubações a estimularam, a limpeza melhorou-lhe a auto-estima, devolvendo-lhe uma encantadora copa de primavera rejuvenescida, a ocultar aqui e ali indícios de calvície. Claro que o facto acentuou o contraste com o tronco muito rugoso e retorcido e a secura de alguns ramos, mas trouxe esta árvore extraordinária de volta ao jardim, transformando-a numa espécie de relíquia decorativa. Hoje vinha a vê-la de longe e a notar-lhe como se quebra perante mais um Verão, como não consegue disfarçar a idade, como os frutos prematuros, que foram amadurecendo, apodreceram sem crescer. Viver o Verão no inverno não deve ser nada fácil.

regresso

volto devagar
às coisas que eram minhas:
uma fotografia
uma rosa
um carrinho de linhas

20.6.17

no regresso a casa

Ao chegar à povoação, já perto da hora do jantar, deparo com uma novidade: para além dos habituais homens sentados à porta dos cafés a beber cerveja, vejo também grupos de mulheres, mas em conjuntos separados. Encostadas aos muros e nos bancos em frente às casas, sempre em número de três ou mais, encontro-as a conversar ao ar fresco do princípio da noite. Suponho que não se trata de uma sublevação de mulheres porque me parecem bastante serenas. O que suspeito é que por estes dias as mulheres, no seu pragmatismo incomparável, sentiram boas razões para desligarem os aparelhos de televisão e atrasarem o jantar.

onde



(...)

Desço ainda um degrau com o anjo infernal,
um turbilhão de ervas, um redemoinho de sangue.
Quem me vale agora se perdi o meu cavalo?

António Ramos Rosa / Ciclo do Cavalo

três rosas


lacunar

Os jardins contorcem-se entre o estio e as trevas.
Avança o ar a correr com as patas
sobre a camisa branca. Então o espaço
é surpreendido pelos mortos que transpiram
em seus blusões de ouro. Da noite
chegam paisagens de água
que batem
em suas grutas tremendamente claras.
(...)
Herberto Helder/ Cinco canções lacunares

19.6.17

açoite

Em 2017 um raio tremendo sacrificou uma vasta região do centro de Portugal. Ao que parece atingiu uma árvore que ardeu e o fogo propagou-se rapidamente, porque, ao que parece, se seguiu uma espécie de tornado que disparou partículas incandescentes para longe, num turbilhão de labaredas incontroláveis. Cercadas pelo fogo, as populações de pequenos lugares e aldeias pediram socorro. Ao que parece ninguém respondeu ao apelo, e, como heróis, com a água que tinham, com os braços que tinham, com os ramos que sobravam, com as forças que já não tinham, ali ficaram a lutar pelo que era seu e dos vizinhos, acenando ao único carro dos bombeiros que não parou, como se fosse o penúltimo dia de muitos rescaldos. Alguns foram atingidos pelo pânico e tentaram fugir, e, ao que parece não encontraram saída, ou a saída que lhes indicaram era um beco incendiado com uma placa a arder sobre o asfalto terminal. Chegaram, ao que parece, até onde implodiam muitas árvores em jorros de cinza e ali ficaram encurralados, e foram uma vez mais o grito sufocado de ninguém. E parece que foi isto mesmo que aconteceu em Portugal, em 2017, dito até à exaustão por quem sobrou. Era Sábado, quando os galos cantaram nessa manhã tudo parecia normal, excepto uma inquietude, tão imperceptível como uma ligeira tremura entre os galhos secos da floresta, vergados pelo calor. As crianças tomaram o pequeno-almoço e vestiram-se para ir brincar. Ia jurar que uma delas até levou um açoite.       

17.6.17

.



Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East, and West
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song.
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now: put out everyone;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.

W.H.Auden/Funeral Blues

receptáculo

e talvez o tubo,

de ensaio.

trança

talvez seja a trança
[como penteado]
o melhor tributo ao DNA 

16.6.17

o trivial perdão

a saturação do ódio, de Agustina, e a banalização do mal, de 
Hannah Arendt, podem bem sustentar a trivialização do perdão  

a saturação do ódio*

Talvez tenha chegado o momento de pressentirmos que todo o crime castigado corresponde a uma impunidade que levamos oculta no coração. Sabemos que as palavras paz amor são simples sedativos; por detrás delas escondem-se programas de natureza mortífera. Não se denuncia claramente nada nem ninguém, não exactamente por falta de coragem, mas por falta de convicção. Um dia, ao fazerem um inquérito sobre o possível desfecho e solução para a guerra do Vietnam, eu falei na saturação do ódio. Só é possível terminar com o enigma do ódio humano ao atingir a saturação.
(...)

Agustina Bessa-Luís/Tudo está cheio de sabedoria

final scene - a petrificação

- Não é assim que se fazem as coisas, meu amigo. 
Foi a última frase proferida pelo velho pastor, cujo rebanho fora dizimado pelas minas de guerra. Vista do céu, a terra parecia um enorme cinzeiro pleno de beatas ainda fumegantes. Kosta* queria morrer como a sua amada e com ela, por isso coxeou até à mina mais próxima, mas o velho correu para impedi-lo, deitando-o ao chão e lutando com ele. Se te matas quem é que vai lembrar-se daquela rapariga e do vosso amor?, tinha-lhe dito. Kosta percebeu o que o outro queria dizer - que precisava de viver para conseguir expressar toda a sua mágoa. E passou os quinze anos seguintes a transportar pedras num alforge que levava a pé até à montanha, de modo a cobrir com elas todo o impressionante campo onde houvera sangue derramado naquela tarde. Por fim só lhe faltava o centro, pequeno, mirrado, com a forma de um coração.

*(Personagem principal de On Milky Road, de Emir Kusturica)

catch the light


15.6.17

cumplicidade

O homem viúvo entrou a sorrir, com o cachorrinho deitado no berço das mãos. De compleição muito antiga a sua figura magra e longa inspirava nobreza. Uma nobreza enlutada e triste. Como uma oferenda, o pequeno cão adormecido nas duas mãos abertas provocou um silêncio fresco semelhante ao da sombra de uma velha alfarrobeira, aberta num deserto de sol. E foi com enorme cuidado que o colocou sobre a marquesa. E o cão não acordou, dada a grande confiança, já muito antiga, que sentia no homem. A barriga sardenta continuou a oscilar sob os meus olhos atentos, cadenciada com o ritmo do sono, e as orelhas, abandonadas a uma anestesia de paz, caíram soltas para ambos os lados da cabeça, flectida e docemente imóvel, macia e branca. Peguei no estetoscópio para me acostar ao seu coração, que sabia tranquilo, ainda a afeiçoar-se ao cronómetro da vida. Quando o vacinei dormia, e nem se mexeu.   

14.6.17

Posted by Agustina

Mas porque é que se podem eleger amigos insignificantes
e a mesma regra não é sólida para os nossos inimigos? 
Pronto, calo-me.

(Porto, 28 de Abril de 1959)

outraface

e dei-lhe a outra face,
como se faz com os amigos.

interface

é possível que nunca faça de ti um amigo
julgo-te demasiado precioso

isso é conversa para outra face 

13.6.17

reading tea leaves



Because we don't know when we will die, 
we get to think of life as an inexhaustible well,
yet everything happens only a certain number of times,
and a very small number, really.
How many more times will you remember a certain afternoon 
of your childhood, some afternoon that's so deeply a part 
of your being that you can ever conceive of your life 
without it?  Perhaps four or five times more, perhaps
not even that. How many times will you watch the full moon rise?
Perhaps twenty. And yet it all seems limitless.

Paul Bowles

asynchronous

Uma tarde, já não me lembro qual, mas sei que era uma tarde amena no início daquela Primavera, joguei forte e ainda bem que perdi. Por causa da quantia que perdi morrerei mais cedo, talvez vários anos. Estávamos sentados numa esplanada em mesas diferentes, mas suficientemente próximos um do outro para ninguém nos ouvir, e nem nos demos ao trabalho de mudar de lugar. Ele disse-me que tinha um cancro, e foi assim, a seco, que degluti. É na garganta, acrescentou, mas ele que se cuide, não sabe com quem se mete, que eu vou vencê-lo. Senti uma tristeza enorme, vinda não sei de onde, talvez do céu, que se abateu imediatamente cinzento sobre mim, talvez do novíssimo verde, tão promissor nas primeiras folhas, que adivinhei arremessadas para um Outono gelado. Ele ali, a morrer ao meu lado, a quase vinte anos de mim, e eu a vinte e seis mil anos-luz da Via Láctea, sem saber bem o que fazer à vida. Então, sem que soubesse, jurei-lhe o meu tempo, o tempo que fosse preciso para que pudesse cumprir a sua promessa. Viveu, ainda vive.

como um quadro de Chagall



É maravilhoso, eles voam como os noivos de Chagall, repito, 
eles caem de mãos dadas, eles são o amor que vence a guerra. 
Sem o amor a vida perde a leveza, a vida é um saco de pedras. 
E calo-me, porque me parece que é isto mesmo que no fundo 
quero dizer ao meu filho, omitindo a cena final.

diagnosis

dairy 
very
milky

11.6.17

o espremedor

Agora que Portugal já não está amordaçado
agora que acabaram os dias da má raça
apanho três pequenas laranjas
das que sobraram na laranjeira
depois de vir um homem com um grande saco 
arrancá-las da árvore à força.
Corto-as ao meio com a faca do pão
e espremo-as 
entre os dedos, para um copo.
E bebo o sumo devagar,
a pensar que foi o melhor sumo que bebi
e que tenho de comprar um espremedor.

10.6.17

cor



Um hábito de música ou de sonho, qualquer coisa
que faça quase sentir, qualquer coisa que faça não
pensar.

Fernando Pessoa / Livro do Desassossego 

perfume























mas, porém, não se ganha
com um paraíso outro paraíso.

Luís de Camões 

Dez



fraquezas são do corpo, que é de terra
mas não do pensamento, que é divino.

Luís de Camões

9.6.17

insecticida

No final da consulta relembrei a colocação do spot on, fazendo um gesto ao longo da coluna do cão. Ainda mal acabara a frase e já sentia um movimento rápido e certeiro de dedos a deslizarem-me pelas costas, acompanhado de um - eu sei. Voltei-me com ar de reprovação pela insolência, mas era tarde. Tinha sido mortalmente atingida. Como uma borboleta fechei as asas e morri ali mesmo. Nunca descobriram a causa da minha morte. Ninguém se lembrou de procurar impressões digitais.     

la danseuse



8.6.17

naco de prosa

os poetas, esses carnívoros

nacco

de prosa

bacco

como um Caravaggio, 
espreita-me de manhã
em moldura de alumínio
os cachos não são verdadeiros
mas a pose é a mesma
sem lençol de linho 

colonial

Na esplanada do Café Central da vila, um homem lê à sombra. O bege acentua-lhe a cor escura da pele. As feições, finamente desenhadas sobre ossos longos, e a postura distinta, denunciam a sua origem. Um relógio e um anel em ouro com uma pedra, brilham, quando no campanário da igreja soa exactamente a uma da tarde sem tempo. Um copo de vinho tinto é colocado com lentidão sobre a mesa enquanto o Financial Times é elegantemente dedilhado como música antiga. O homem que veio de Nascente bebe um pequeno golo de vinho na pausa ínfima entre o passar de cada pauta. Nada o perturba até estacionar no largo uma Ford Transit branca. Uma mulher de meia idade, alta e loura, de roupas claras e cabelo curto aproxima-se e diz Hello! Hi, é a resposta, com rotação do olhar em quarto de circunstância. A mulher comenta alegremente em voz alta que conduz aquela carrinha por lhe dar jeito no dia-a-dia, e os olhos azuis acendem-se mais ainda quando justifica, pareço uma cigana, uma das deles, mas temos de nos mexer senão com a idade vamos parando e o cérebro também pára, não é? É. Mas também há uma forma de nos movermos a alta velocidade, estando completamente imóveis.    

7.6.17

um lugar à mesa

De noite, nem sempre, o telefone toca. Ela atende mas vê primeiro o rosto reflectido no ecrã, e, instintivamente, estuda o melhor ângulo para ser vista, compõe o cabelo, diminui a intensidade da luz. Ela sabe da importância disto, ou suspeita, e mesmo que não seja o melhor momento, ela ensaia a melhor expressão, a que lhe vem de dentro, a que ela quer que transpareça toda no seu rosto, pousando os talheres, interrompendo alguma tarefa, tornando-se disponível. Depois aparece a criança, sentada à mesa, do outro lado. A criança vê a avó, e a avó dá quase sempre uma grande gargalhada sobre a birra da neta, que vira a cara à colher de sopa. A criança reconhece-lhe a voz e sorri, e abre a boca e engole, e quer mais, distraída. Ela então continua, porque sabe da importância disto, a comunicar com a criança, a estimulá-la, a cantar. Depois esconde-se, desaparece da moldura - não há, diz - não há, é o gesto em forma de resposta. E quando volta a aparecer, sempre a sorrir, os sorrisos voltam a encontram-se. Até ao fim da sopa. 

índice de frescura


































































6.6.17

acto único

toda a minha vida foi um acto de contrição 
à tua espera

Canto do início

Ao princípio era a luz, depois o céu
azul porque a luz se embebe
nas camadas de ar que olhamos.
Ao princípio era a Paixão e engendrou
do seu sangue os animais, da sua
Cruz as plantas. Era, ao princípio,
o animal-vegetal minúsculo, oculto
no Paraíso, mas omnipresente
desde o ante-princípio. E da argila
ou terra adâmica formou-se a Natureza
e o Homem, banhados pela luz
que recortou linhas e volumes vagos.
Ao princípio era o martírio
e a bênção daquele que trabalha
o seu corpo e o seu pão de sol a sol.
E os frutos fulguraram nessa luz
quando as águas se apartaram
e o mar, até hoje, quebra e requebra a onda
para eu ouvir o som do início.

Fiama Hasse Pais Brandão / Canto do Génesis 


rosa


5.6.17

iscas sem elas

Abro a embalagem em cuja etiqueta vem escrito, em maiúsculas, - pork liver e por baixo, fígado - disposta a temperar as iscas para o jantar. Muito bem trinchado, o fígado desliza-me finamente por entre os dedos protegidos pelas luvas de cozinha, aguarelando-as de vermelho. Mas o cheiro a sangue é forte, acre, enjoativo, evito olhar e inspirar ao mesmo tempo, enquanto as passo por água fria. Sal, alho, louro, vinho branco, vinagre. Há que tempos que não como fígado amargo, de porco. Without them e por baixo, sem elas.  

Hi

O português deixou de ser a minha língua principal,
no dia-a-dia. Eu não estou cá, digo ao telefone, em
conversa com a minha mãe.

4.6.17

flowers for London















































































































terceiro acto

(...)
E também existe outro fenómeno: pode ser-se um grande artista e um assassino, uma pessoa a favor do extermínio. Há um momento muito importante nos diálogos de Cosima Wagner, em que Wagner está lá em cima, no primeiro andar, e ela ouve-o ao piano a rever o 3º ato do "Tristão". Ele desce para almoçar, e de que é que falam? De como queimar os judeus. O homem que tinha estado a compor a melhor música do mundo desce para almoçar e discute alegremente como livrar-se dos judeus. O que quero dizer é que eu não poderia viver num mundo sem a música de Wagner. A minha dívida para com ele é enorme. A minha dívida para com Nietzsche, para com Céline! Que livros belos e horrendos! Não tenho resposta para estas pessoas. Não há explicação. Perante os gigantes temos de ficar calados.

George Steiner, ao Expresso

cover



A única música verdadeira é aquela que nos permite 
apalpar o tempo.

Cioran

3.6.17

um copo de rosas

Não troco nada do que não tenho pelo muito que conquistei. Respirar a liberdade do vento; entrar tarde no silêncio da casa quando já metade da lua se apoderou do céu; demorar-me no jardim a colocar estacas nos gladíolos de dois metros, enquanto Cópia - o gato preto que imita Princess, a gata, para se infiltrar na casa do dono desta - cruza agora as patas à frente e me observa do alto do muro, com a atenção dos humanos, percebendo tudo, mas tudo mesmo, sobre essa liberdade felina, esquiva e sinuosa que tomou conta de mim faz seis meses; cortar os rebentos de laranjeira junto ao pé, aproximá-los do rosto e inspirar ao máximo, reter nos pulmões o perfume que se solta do caule e das folhas tenras, depois enfiá-los no meio das rosas, num copo alto; ligar a música e ficar a ouvir o piano que vem do escuro; comer uma fatia de pão, outra de queijo e beber um copo de vinho tinto à luz de uma vela. Nada sabes, mas eu sei que sou todos os poemas que li, tudo o que vi, sou um mundo que tu nunca, mas nunca, poderás encarcerar na melhor versão que tenhas de mim. Escapar-te-ei sempre.     

da paixão

ofereceu-me um morango
perguntei se estava lavado

2.6.17

filatelia

nunca fui de coleccionar selos
porém admirava-lhes a beleza.
alguns, no entanto, eram banais
como os pequenos Cavaleiros carimbados
que em cinzento, amarelo, ou esverdeado  
trotavam com escudo nos centavos 
exibindo autoritária realeza
sobre as cartas 
e nas costas dos postais.