Atalhos de Campo


8.5.17

incorpórea

Vivo como se tivesse recebido um bónus de vida, que agora resolvesse gastar muito bem. Nada invejável, já que aquilo em que eu gasto esse dote de tempo não tem o mínimo interesse para a maioria. Pairo. Não quero perder a oscilação da luz nas sombras, nem a flor tardia daquela frésia branca que é a primeira do canteiro, nem o segundo lírio da haste, nem o azul único de um botão de anémona, nem o verde claro das vagens de alfarroba, nem o verde escuro do figo que ainda cresce oculto entre as folhas, nem o perfume de mel do allyssum, ou a essência forte do jasmim e das petúnias. Sinto a leveza imaterial do ar aveludado pelos pássaros, observo os seus pequenos truques para roubarem nêsperas, sigo o voo rasante, quase suicida, do melro que se atravessa no meu caminho junto ao asfalto quente, na passagem para a noite. Cumprimento todos os dias o louva-a-deus que vive num cacto do jardim, reparo que está muito maior, e descubro o seu casaco anterior pendurado num espinho. E de manhã acordo com o pensamento nas flores, sem nenhuma dor, e sem o mínimo desgosto, apenas eu, livre do meu corpo.