Atalhos de Campo


29.5.17

frutos do silêncio

Sei que quando diz que gosta de mim não sabe o que diz porque não me conhece. Pergunto-lhe porque é que as pessoas gostam do que não conhecem, mas ele encolhe os ombros, e diz que fala mal português, mas não é verdade, fala bem porque viveu em Angola vários anos. Agora estou... e pede-me ajuda, digo reformado, sim reformado. Ainda não se fartou, responde-me a acompanhar um gesto enorme, que trabalha muito, que está a plantar árvores, muitas árvores de fruto. Reparo na barba por fazer e na camisa entreaberta e solta sobre as calças. Deve ter vindo directo do pomar, penso. Gosta de viver aqui. Portugal é muito bom, bom clima, paz. Sim não andamos em guerra civil, mas os homens por vezes matam a família e os vizinhos, e quando isso acontece o povo está doente, não é uma paz verdadeira. Ele levanta-se. Não veio fazer nada, passou e resolveu entrar para conversar. Promete voltar um dia destes, para falar mais um pouco. É que as árvores, apesar de serem boa companhia, não respondem, e isso eu sei muito bem.