Atalhos de Campo


3.5.17

fantasia para dois limoeiros

Em dois quintais contíguos vivem dois limoeiros que nada têm em comum: um é generoso, o outro sovina. O porte das duas árvores está também em consonância com a atitude: o limoeiro que dá é harmonioso, não muito alto, e estende vários braços com mais limões do que folhas, ao ponto de poder partir algum deles com o peso. Os limões são grandes, redondos e maduros e toda a árvore é uma aparição no meio do quintal. Sánchez Cotán poderia muito bem ter sido inspirado por um destes belos limões, é o que penso enquanto arranjo a fruteira. Já o limoeiro sovina todo se retrai à passagem do mais pequeno mamífero, escondendo os limões escassos e emaciados por entre folhas e espinhos, lá para o alto da copa esguia. Também tem a particularidade de dar laranjas num ramo baixo, com as quais tenta ludibriar quem vai à procura de um ansiado limão, num sítio dominado por laranjeiras. Acontece que ontem fui encontrá-lo sem um único fruto, nem daqueles mais raquíticos que mesmo assim esconde na mão fechada. Tudo fora apanhado. O limoeiro havia sido escanhoado, o cabelo cortado fazia uma poupa a tresandar a after shave de odor citrino, e esticava altivamente o pescoço com desdém, empertigado com o tratamento. Olhei de imediato para o outro lado através da rede, não podendo disfarçar a minha cobiça - uma dádiva da natureza aquele limoeiro vizinho, um esbanjamento - e voltei para casa cabisbaixa, com um suspiro e uma laranja verde na mão. Não sei o que entretanto se passou, nem bem porquê, mas se acreditasse em coincidências acharia esta uma bela coincidência: de manhã, pendurado para o lado de dentro do meu quintal, estava um saco de plástico, repleto, sim, repleto, daqueles maravilhosos limões.

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