Atalhos de Campo


19.5.17

Der fliegende Höllander

Sentado no terraço, uma sombra entre as estrelas e as luzes de todo o vale, absorto em pensamentos, fixava o farol da Culatra hipnotizado pelo aviso aos navegadores, ainda mais premonitório à distância. Abandonara-se ao mutismo da noite fresca, inquietada aqui e além pelo restolhar do vento nas folhas dos arbustos. Detivera-se a analisar esse grande ilusionista que é o cérebro, usando os seus próprios meios e meandros. Podia muito bem ter vivido toda a vida uma ilusão, a linha do horizonte não era mais do que isso, era aliás a prova irrefutável disso, o canto dos pássaros uma série de sons encenados pelo cérebro, as cores uma miragem de luz sobre a retina e o nervo óptico, as flores pequenos devaneios de perfume. Caíra no engodo da arte, sobretudo da música, aquela que ouvia num arrepio que não sabia se fora provocado pelo súbito arrefecimento, se por um soluço da alma. Nunca o seu cérebro lhe dera a sentir nada tão intensamente como a música, coisa alguma o reduzira tanto a uma partícula do cosmos em comunhão com o Universo, a mais uma célula em comunhão com a Humanidade. Aproximou os joelhos magros para aconchegar as pernas altíssimas, assentou os cotovelos sobre elas e ali ficou, sem pressa de regressar a casa. Se tinha tudo, então por quê essa atracção irremediável pelo mar, por partir, por passar a barra e apenas ir, sem destino, sem fardos, sem nada? Tantos anos e ainda não encontrara o essencial, mantivera-se enredado no equívoco do conforto, fora apanhado na rede como um peixe atrás do isco. E sufocava. Mas agora já era tarde para se fazer de novo ao mar, já era tarde para partir. Levou as mãos aos olhos para limpar uma lágrima, e nem reparou na fatia de lua que lhe escorregou por entre os dedos e que ficou ali, a brilhar no chão. Ultimamente acontecia-lhe isto, emocionava-se com facilidade, disse, ao entrar em casa.