Atalhos de Campo


15.5.17

conversa de barbeiro

...e por muitos canitos que tenha visto na sua vida, nunca foram tantos como os cortes de cabelo que me passaram pelas mãos. Ah!, é então barbeiro... Não, cabeleireiro, mas de homens. Só em Nova Iorque trabalhei quarenta anos, depois Buenos Aires, depois Portugal. Mas os primeiros tempos em Nova Iorque, com aquela mania dos Beatles, foram uma desgraça, uma crise para os barbeiros, ninguém cortava o cabelo. 

Não pude evitar uma gargalhada, logo arrependida. Foi tremendo, não se ria. Tive que guiar um taxi por aquelas ruas, para sobreviver. Adoeci e estive quatro meses sem trabalhar... foi muito difícil. A seguir voltei, depois de tirar um curso de cabeleireiro. De senhoras? Não, de homens, só de homens. Nunca penteei nem cortei o cabelo a uma única mulher. Sabe, as senhoras têm aquela mania de querer o cabelo igual ao da outra, e quando não fica bem acham que nós é que não as soubemos pentear. Foi precisamente aqui, com um gesto involuntário, quase imperceptível, que levei a mão ao meu cabelo. Tem razão, os cabelos comportam-se todos de maneira diferente...  Presentemente estou aposentado, mas fui muito feliz na minha profissão. E também ganhei muito dinheiro. Agora não se fazem cortes como antigamente, já reparou? Rapam o cabelo e pronto. Desta vez nem sorri, pressentindo nova crise.

E quando A., cabeleireiro de homens, se despediu, afirmando que era bom que os homens se tratassem entre si como os animais tratam o homem, eu fiquei a imaginá-lo a pentear um beatle.