Atalhos de Campo


12.5.17

chorar à vontade



Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração

Amália (voz)
Alain Oulman (música)
Alexandre O'Neill (poema)




E se ouvirem a Amália cantar a *Gaivota*, 
versos deste senhor, podem chorar à vontade.
E podem molhar os sapatos, estão garantidos
para a eternidade.

Clara Ferreira Alves/ O'Neill e os atacadores da língua
Expresso E 6/Maio/2017